 BARBARA CARTLAND

A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes de livros vendidos em todo o mundo

O palcio das nuvens

A duquesa de Monreuil desejava ardentemente conhecer o marqus lvaro de Oliveira Vasconcelos

e isso por uma curiosa razo: queria verificar apenas se ele era parecido com o pai, o belo, rico e arrogante marqus Joo Vasconcelos, que, trinta anos antes, a 
fizera sofrer a ponto de faz-la desejar a morte. Por essa semelhana, o marqus lvaro pagaria com o corao. E o instrumento de vingana da duquesa seria uma jovem 
linda e meiga que, por uma estranha ironia, se chamava Felicidade.

Os olhos de Felicidade encontraram os do marqus, e ela estremeceu...



BARBARA CARTLAND

Leitura a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: Lovers in Lisbon 
ttulo o em portugus: 

O Palcio Das Nuvens
Barbara Cartland 1987

Traduo: Vera Ldice Reys Copyright para a lngua portuguesa: 1988

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 3 andar

CEP 01452 So Paulo SP Brasil

Caixa Postal 2372

Esta obra foi composta na editora Nova Cultural Ltda. e impressa na Artes Grficas Guar S.A.
Digitalizao e correco:
Ftima Toms 


NOTA DA AUTORA

Se as lendas merecem crdito, Lisboa foi fundada por Ulisses, mas um fato verdadeiro  que os gregos faziam comrcio pela costa ibrica e que a grande enseada do 
rio Tejo foi durante muito tempo chamada de Ollissabona nome que consta em alguns mapas dos mais antigos.

Lisboa, hoje em dia, com suas sete colinas em semicrculo abrigando a estreita faixa de terra  margem do rio,  extremamente bonita.

O povo  alegre e hospitaleiro; os restaurantes servem pratos deliciosos  base de peixe fresco, e as igrejas falam de f desse povo que permaneceu imutvel no decorrer 
dos sculos.

Na Cidade Velha, as caladas estreitas ficam apinhadas de uma colorida multido formada de diferentes tipos: turistas, vendedores de bilhetes de loteria, cantores 
cegos de rua e vendedores de frutas com suas barracas.

Ao redor das fontes do Rossio ficam vendedores de flores.

O aroma de caf que sai dos bares e confeitarias espalha-se pelas ruas, misturando-se ao cheiro de mar que a brisa traz.

 tudo muito diferente da agitao das grandes cidades modernas, e bem mais agradvel e atraente.

Fora de Lisboa fica o Estoril, que, com suas vilas e requintados hotis, suas sacadas floridas e as lojas elegantes, tornou-se o lar de muitos monarcas europeus 
que perderam o trono. H at uma praia que tem o nome de praia da Rainha.

CAPTULO I
1890

O gerente adiantou-se obsequioso. Descendo a escada com uma graa que fora aclamada por toda a Europa vinha a duquesa de Monreuil.

Bom dia, madame disse ele em francs.

Ela respondeu em portugus, que era sua lngua nativa:

Bom dia, senhor, est um lindo dia!

Est lindo, madame retrucou ele, porque o sol brilha onde a senhora est.

Ela sorriu, e ele continuou:

A carruagem especial que mandei buscar chegar em poucos minutos. Talvez a senhora prefira esperar no salo, madame?

No, esperarei aqui respondeu a duquesa. Dizendo isso, sentou-se numa poltrona, diante de uma escrivaninha que ficava no centro do amplo salo de recepo do Grande 
Hotel.

A duquesa estava muito atraente naquele vestido, que evidentemente era parisiense.

Jias brilhavam nas orelhas delicadas e nos dedos longos e finos das mos sem luvas.

Diga-me disse ela, dirigindo-se ao gerente, que continuava a rode-la, o que tem acontecido em Lisboa?

Mal acabou de fazer a pergunta, arrependeu-se. No suportaria falar sobre Lisboa.
Da ltima vez que estivera no que era chamada a mais bela cidade da Europa sofrera tanta infelicidade e agonia, que s desejara esquec-la.
Naquela poca a cidade no lhe trouxera alegria.

Contudo, j fazia trinta e dois anos que no punha os ps em seu pas de nascimento, o que lhe parecia um absurdo.

Lembrava-se de cada tijolo, cada pedra de Lisboa.

O sol brilhando no mar, a beleza das antigas construes, as flores que havia em toda parte. Principalmente nas cestas das vendedoras que ficavam ao redor das fontes.

Ao chegar, na noite anterior, e sentir o perfume caracterstico de Lisboa, pensou que fizera mal em ter vindo, e seu primeiro impulso ao acordar de manh foi partir 
imediatamente de volta a Paris.

Porm, depois de ter feito tanto esforo para voltar ao pas, agora ali instalada, o orgulho, que era uma caracterstica sua, no a deixaria fazer papel de covarde.

Iria enfrentar de uma vez por todas o fantasma que a perseguia h tanto tempo. Um fantasma que ela temia a acompanhasse at a morte.

Tentara esquecer o que acontecera enquanto era aclamada na Frana, em Monte Carlo, na Grcia, na Hungria, em Viena e em Londres.

Repetia para si mesma mil vezes que no iria pensar nela, no iria lembrar-se dele.

Entretanto, ele estava sempre presente em seus pensamentos.

Bastava fechar os olhos para ver seu belo rosto, como se o tivesse encontrado no dia anterior.

"Minha querida Ins, eu amo voc!", ouvia aquela voz sonora ecoando atravs dos anos. "Voc  minha, s minha. Eu sou o primeiro e serei o nico homem de sua vida".

Palavras profticas.

To profticas que mesmo agora, quando j estava envelhecendo, tinha vontade de gritar por no poder fugir  lembrana dele.

Com muito esforo afastou o passado da front"

O gerente continuava a seu lado.

Diga-me uma coisa continuou ela, agora que
o marqus Joo de Oliveira Vasconcelos morreu, quem est morando no Palcio Azul?

O filho dele, madame, o marqus lvaro, mora l agora.

Filho dele?! repetiu a duquesa, num sussurro. No sabia que ele tinha um filho.

Tem, sim, madame, e o marqus lvaro  muito parecido com o pai. Muito bonito, atraente, cativante e, deixeme ver... j deve estar com mais de trinta anos agora.

Eu no imaginava... disse a duquesa num fio de voz.

A senhora deve ter conhecido o marqus Joo quando esteve aqui, no , madame?

Por instantes a duquesa fechou os olhos, e depois respondeu com uma voz que nem parecia a sua:

... eu o conheci.

Ento deve lembrar, madame, como o marqus era imponente montando seus magnficos cavalos!

E o novo marqus, o filho dele?

Parece-se com o pai, e  admirado por todos como cavaleiro. Os cavalos dele vencem todas as nossas mais importantes corridas.

O gerente sorriu antes de acrescentar:

Temos muito orgulho do marqus lvaro, assim como tnhamos do pai dele.

De novo a duquesa fechou os olhos.

Podia ver o marqus, tal como o gerente o descrevera, montando o enorme cavalo negro, cavalgando em sua direo.

Assim que o viu pela primeira vez, teve a sensao de que sara da morada dos deuses, nas montanhas, como o povo de antigamente acreditava.

Sem dvida ele lhe parecia um deus.

Desde que o conhecera at quando ele a envolvera nos braos, chamando-a de sua.
Como poderia uma jovem inocente e inexperiente ter resistido ao marqus Joo?

Talvez a senhora queira sair e ver o palcio... sugeriu o gerente. Agora est ainda mais imponente do que naquela poca. O novo marqus gastou uma fortuna para melhor-lo, 
e os jardins no tm rival em beleza.

A duquesa respirou fundo.

Como poderia esquecer aqueles jardins com fontes de pedras jorrando gua lmpida ao sol brilhante?

Lembrava-se do perfume das camlias brancas e rosadas.

Joo gostava de lhe dizer que os deuses tinham colocado as flores ali especialmente para realar a beleza dela.

Havia pontes japonesas, pedras ornamentais, quiosques e grutas.

Ele a beijara em cada canto daqueles jardins.

Caminhavam ao sol at as estufas, onde ele colhia orqudeas, e lhe oferecia, dizendo-lhe que no eram to belas quanto ela.

Sim, lembrava-se do Palcio Azul, com suas torres gticas, minaretes rabes, cpulas e mirantes renascentistas

Ela costumava cham-lo de Palcio Encantado, e Joo no podia deixar de ser o prncipe encantado.

Jamais, jamais esqueceria os clidos veres que haviam passado juntos ali.

S que, quando a famlia dele chegou e o palcio se encheu de hspedes aristocrticos, na temporada das corridas, ela foi banida para uma casa colina abaixo.

Ficou l, servida por vrios criados, at que pde juntarse novamente a Joo.

Fora um sonho.

Como uma criana, nunca pensou que um dia acordaria para a realidade.

Joo a levou para Paris.

Comprou-lhe roupas e jias que ela jamais pensara possuir, e que a deixavam ainda mais bonita.

visitaram vrios pases viajando no iate dele, mas a duquesa pouco se lembrava desses lugares.

S o que lembrava era dos lbios de Joo sobre os seus,

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os braos de Joo em torno de seu corpo e o xtase e a felicidade que sentia cada vez que ele a possua.

A senhora sem dvida gostar de ver o Palcio Azul, madame prosseguia o gerente. Ns achamos graa, at, e costumamos dizer que ele parece ter sido construdo para 
um rei. Mas, afinal, o marqus lvaro no deixa de ser um rei...

A duquesa j no estava suportando mais aquela conversa que tanto lhe fazia recordar o Palcio Azul, quando houve uma interrupo.

Uma moa aproximou-se do gerente e, em voz baixa e suplicante, pediu.

Por favor, senhor, por favor, deixe-me mostrar meus bordados para as senhoras que esto hospedadas aqui.

A duquesa ouviu, mas o gerente fez um gesto impaciente, querendo afastar a moa. Ela, porm, insistiu:

Eu lhe suplico que me ajude, senhor, como j fez antes. Estou morrendo de fome e no tenho dinheiro nem para comprar meu material de trabalho.

O gerente abriu a boca, decidido a livrar-se dela, mas parecia no encontrar palavras e no conseguia resistir quele olhar splice.

Via-se que era uma moa educada e fina, numa situao de desespero.

Por ser um homem bondoso, o gerente cedeu a um impulso e virou-se para a duquesa, dizendo:

Ser que a senhora no gostaria de ver os belos bordados que esta jovem costuma trazer aqui de vez em quando? Eu lhe garanto que so da mais alta qualidade, e no 
se encontram em nenhum outro lugar da cidade.

A duquesa, absorta em suas recordaes, j ia dizer que no estava interessada, quando olhou para a moa, que estava parada a uma certa distncia e percebeu, abismada, 
que alm de ser muito bonita, era espantosamente parecida com ela prpria h uns trinta anos, quando Joo a vira pela primeira vez.

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Por instantes teve a impresso de, por alguma estranha magia, estar vendo a prpria imagem.

Notou tambm que a moa era bem diferente de todas as portuguesas que j vira.

Tinha os cabelos negros como nas pinturas de Nossa Senhora, que estavam na catedral, e os olhos incrivelmente azuis. Os clios eram longos, escuros, mas os olhos, 
azuis como o Mediterrneo. O rosto oval era delicado, e o nariz, reto e pequeno.

Olhando para ela, dava para se perceber que no mentira ao dizer que estava passando fome.

A magreza era visvel no rosto e principalmente nos pulsos ossudos e nas mos trmulas que seguravam os bordados.

Deixe-me ver o que tem para vender disse a duquesa.

O gerente ficou de lado. A moa aproximou-se e, ajoelhando-se aos ps da duquesa, abriu o pano cinzento.

Havia ali uma camisola de seda com aplicaes de renda.

Bastou um olhar para a duquesa perceber que se tratava de um trabalho excepcional, tanto que no conteve a admirao.

Mas  tudo trabalho seu?!

, sim, senhora. Aprendi a bordar no convento retrucou a moa. As freiras so famosas por seus trabalhos de agulha.

Mas est muito bem feito! Uma beleza! Vou comprar isso e outras coisas que voc tenha.

A moa no se conteve, seus olhos encheram-se de lgrimas.

Obrigada... obrigada... a senhora me salvou! Quando vim para c estava pensando que esta seria minha ltima oportunidade de continuar viva!

Como pode pensar em morrer sendo to jovem? disse a duquesa.

Mas ao dizer isso lembrou-se do prprio sofrimento e agonia quando decidira morrer.

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De um modo bem diferente, fora salva no ltimo instante.

A vida  preciosa! acrescentou.

Mas achou que podia parecer hipocrisia dizer isso. A vida no lhe parecia bela nem preciosa quando tinha a idade daquela moa.

Na verdade, tinha preferido morrer a viver sem Joo e sem amor.

Eu tenho mais duas outras peas em casa. A senhora quer que v busc-las?

A ansiedade da moa a fez sorrir. Como era fcil ser bondosa quando se tinha condies para isso!

Com licena, madame interrompeu o gerente, mas sua carruagem chegou.

A duquesa ergueu-se lentamente.

Providencie para que levem  minha suite o que esta moa est me vendendo disse ela e pague o preo que est pedindo.

Olhou para a moa, ali parada, e de repente mudou de ideia.

Venha comigo disse. Eu a levarei at sua casa, assim poder me mostrar os outros trabalhos.

 muita bondade sua, madame disse o gerente. Eu lhe asseguro, a moa  de absoluta confiana.

Foi o que pensei retrucou a duquesa. Comeou a atravessar o hall, e o gerente apressou-se em ir abrir-lhe a porta.

A moa acompanhou-a, imaginando se iria na carruagem com a duquesa ou se entendera mal o que ele dissera.

Era uma carruagem aberta, e os cavalos pareciam muito bem cuidados e bem alimentados.

Na boleia havia um cocheiro e um lacaio.

O porteiro uniformizado do Grande Hotel abriu a porta e ajudou a duquesa a subir no veculo.

Ela acomodou-se no assento e ele cobriu-lhe os joelhos com uma leve e colorida manta.

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A moa ficou parada, hesitante, mas o gerente disse-lhe, enrgico:

Vamos, menina, entre e sente-se!

Ela obedeceu, parecendo frgil e assustada.

A senhora pretende mesmo levar esta moa para a casa dela, madame? perguntou o gerente.

Pelo modo como falou, a duquesa percebeu que ele estava preocupado com o fato de talvez ela ter de ir a uma regio da cidade no muito agradvel de ver.

Foi o que eu disse, no foi? retrucou, e, virando-se para a moa: Onde voc mora?

Ela deu o endereo, que o gerente sabia ser um bairro pobre, mas respeitvel, perto da praia. A duquesa repetiu o que ouvira ao porteiro, que o transmitiu ao cocheiro.

A carruagem partiu.

A duquesa ia calada

Aps alguns instantes, a moa sentada  sua frente disse timidamente:

A senhora  muito bondosa, madame.

Como  seu nome?

Felicidade Galvo, madame.

E voc mora com seus pais?

Houve uma breve pausa antes que ela respondesse:

Meu pai morreu no ano passado e minha me h dois meses...

Notava-se o sofrimento em seu tom de voz.

Ento, com quem voc est morando?

Na penso onde minha me e eu vivemos os ltimos seis meses da vida dela. A dona da penso tem sido muito boazinha, mas eu devo a ela dois meses de pagamento pelo 
quarto e pela comida.

A duquesa no disse nada, e Felicidade prosseguiu:

Ela tambm  pobre e precisa do dinheiro... e se a senhora no tivesse me ajudado hoje, eu no poderia continuar abusando da bondade dela...

 E agora que recebeu o dinheiro, o que pretende fazer?

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Continuar trabalhando, madame, e rezar para que Deus me ajude como me ajudou hoje...

No me parece um meio de vida muito seguro.

A moa fez um gesto de desolao, dizendo sem palavras que no havia outra alternativa.

Olhando para ela, a duquesa notou mais uma vez que era muito bonita, -

Que idade voc tem?

Dezoito anos, madame.

"Que coincidncia", pensou a duquesa. Felicidade tinha a mesma idade que ela quando conhecera Joo.

Conhecera-o exatamente trs dias aps seu aniversrio de dezoito anos.

Tinha ido passear sozinha na praia, coisa que lhe era proibida.

Mas no havia ningum para acompanh-la naquele momento, e ela estava precisando fazer exerccio.

Por isso, saiu levando apenas seu cachorro e achando que assim estava mais bem protegida do que com as criadas velhas, que no gostavam de sair de casa para esse 
tipo de passeio. Preferiam a segurana da velha cozinha.

Alm do mais, quando os pais da menina estavam fora, os empregados consideravam-se de folga.

Estava um dia lindo e ensolarado, com uma leve brisa.

Ela corria pela praia} sentindo-se livre.

Como estava sozinha, tirara os sapatos e as meias para andar pela gua.

Bincava com o cachorro, jogando um pedao de galho seco que ele ia buscar.

Ela ria e afagava o animal.

Por ter estado correndo, seu chapu sara da cabea e ficara pendurado pelas fitas, nas costas. Seus cabelos escuros, encaracolados e um tanto rebeldes emolduravam-lhe 
o rosto, caindo sobre a testa.
Daquela vez atirou o pedao de galho o mais longe que pde, em direo ao mar. O cachorro correu para busc-lo.

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Foi ento que ela percebeu que algum montado a cavalo parara s suas costas.

Virou-se e no pde deixar de pensar que estava diante de uma apario vinda de outro mundo.

Realmente, jamais vira um homem to atraente, majestoso e belo quanto aquele.

Ficou paralisada, olhando-o, sem conseguir desviar o olhar.

O homem fez o cavalo aproximar-se um pouco mais e perguntou-lhe, com uma voz sonora, quente e cativante:

Como  seu nome?

Ins.

Um bonito nome para uma jovem encantadora! Ela enrubesceu.

De repente, tomou conscincia de estar descala, os cabelos agitados pelo vento, a ponta da saia presa na mo para que no se molhasse.

Eu estava brincando com o meu cachorro.

 o que vejo, e noto que ele teve sorte de ter arranjado essa dona.

Isso foi o comeo.

Ins caminhou com ele pela areia, depois sentaram-se na relva para conversar.

O marqus a fez falar de si

Ela contou-lhe que a famlia estava fora porque o pai fora visitar uma firma no Porto. Pretendia fazer o projeto das novas construes que tinham programado.

Seu pai  arquiteto? perguntou o marqus.

Ele j projetou vrias construes em Lisboa, mas no momento as coisas esto difceis, como voc deve saber. As pessoas no tm dinheiro para o tipo de construo 
que papai gosta de criar.

O marqus mostrou-se interessado, depois mudaram de assunto e falaram de si mesmos.

Ins acabou concordando, embora soubesse que no de via jantar com ele naquela noite.

Foi um jantar  luz de velas, cheio de encanto e magia.

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Depois o marqus levou-a para casa em sua luxuosa carruagem e, ao despedir-se, beijou-a.

Nesse momento ela percebeu, incrdula, que estava apaixonada pelo homem mais fascinante que j conhecera.

Fascinante era a palavra exata para defini-lo.

Nenhuma mulher, a menos que fosse de pedra, poderia ter resistido aos encantos de Joo.

Chegamos, madame disse Felicidade, nervosa, quebrando um silncio que durara muito tempo.

Ah,  claro disse a duquesa. Ento, v buscar as coisas que prometeu mostrar-me. Eu espero aqui.

Felicidade sorriu, o que fez ficar ainda mais bonita.

Estou at com medo, madame, que a senhora desaparea... como a carruagem de Cinderela e a fada madrinha!

Prometo que no desaparecerei respondeu a duquesa.

O lacaio abriu a porta da carruagem.

Felicidade saiu correndo e subiu os degraus de entrada da casa humilde.

A duquesa podia sentir no ar a euforia da moa.

Felicidade parecia estar sentindo o que ela sentira ao voltar correndo para casa, na tarde em que conhecera o marqus.

Tinha, ento, revirado o quarto de pernas para o ar para encontrar um vestido que lhe agradasse e a deixasse bonita para jantar com ele.

Joo! Joo! Por que seria que aquela moa, tal como Lisboa, o trazia de volta  sua mente com tanta intensidade?

Era quase como se ele estivesse ali, sentado a seu lado.

Logo, porm, lembrou-se do sofrimento que sentira quando, cinco anos mais tarde, ele lhe disse que iria se casar.

Lembrou-se de como acordara alvoroada e eufrica na manh em que ele deveria chegar de volta da Inglaterra, onde fora participar das corridas de Royal Ascot.

Tinha inscrito seu melhor cavalo para a Copa de Ouro.

Ins rezara, como o marqus lhe pedira, para que o cavalo vencesse.

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Rezara tambm para que o marqus voltasse logo e eles continuassem felizes como eram antes de ele ir viajar.

Estava esperando por ele na bela casa que ele lhe comprara nos arredores de Estoril.

O marqus achava aquela casa perto do palcio pequena demais para abrig-los quando estavam juntos.

Alm do mais, ambos achavam inconveniente e desagradvel o fato de ela ser obrigada a sair do palcio quando ele precisava receber hspedes.

Por isso, tinha agora uma casa razoavelmente grande e muito confortvel, com quatro empregados para servi-la,

O jardim era quase to bonito quanto o do palcio.

Joo, antes de tir-la da casa dos pais, fora bastante generoso com o pai dela.

Empregara-o como arquiteto, para que cuidasse de suas vrias propriedades em Portugal.

Quando Ins comunicou aos pais que estava decidida a sair de casa, eles ficaram chocados e extremamente preocupados.

Contudo, no puderam fazer nada e tiveram de aceitar o inevitvel.

A me chorara muito.

Por outro lado, Ins sabia que eles estavam impressionados e se sentiam intimidados pelo marqus.

Achavam que, afinal de contas, no era tanta desgraa como seria se ele fosse outro homem.

Assim, Ins passou a viver com o marqus, mas sempre o considerou seu marido, o homem a quem pertencia.

O fato de ele estar voltando para casa depois de uma viagem deixava-a to emocionada quanto no dia em que se tornara seu amante, em que a amara pela primeira vez.

"Esta noite", pensava enquanto se vestia, "estarei nos braos dele e poderei dizer como o amo e como os dias ficaram vazios enquanto ele esteve longe..."

- Eu o amo! disse ela para o sl e as ondas do mar que se debatiam nos rochedos.

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Foi para o jardim e colheu rosas para enfeitar e perfumar a sala e o quarto do casal. Queria um cenrio bonito e perfeito para o amor deles. Ele chegou, conforme 
ela esperava, por volta de seis horas.

Entrou na sala, e por instantes Ins ficou imvel contemplando-o, cheia de amor, achando-o lindo.

Depois correu para os braos dele.

Joo!

A voz quase no lhe saa, tal era a emoo. O corao batia descompassado.

Ele a envolveu nos braos, mas, ao beij-la, Ins sentiu que algo mudara.

O beijo estava diferente, parecia no ter tanto ardor quanto antes.

Meu querido, que bom que voc voltou!

Mal acreditava que tinham terminado as tristes e longas horas de espera. Mas, ao erguer o olhar e encontrar o dele, perguntou,

assustada:

O que aconteceu?

O marqus soltou-se de seus braos, caminhou at a lareira e virou-se para Ins com aquele jeito que ela conhecia to bem.

Por que haveria de ter acontecido algo?

Aconteceu! Eu sei que aconteceu! Ah, meu amor, o que aconteceu com voc enquanto esteve longe?

Houve um silncio em que ela imaginou poder ouvir as batidas do prprio corao.

Eu no pretendia falar nisso esta noite...

Nisso o qu?

... mas acho prosseguiu ele como se ela no tivesse falado que, sendo to ntimos como somos, seria impossvel para um de ns fingir.

Ins ficou em suspenso, quase sem respirar.

No estou entendendo... De que est falando?

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O marqus sorriu com esforo, dizendo num tom de voz diferente:

Vamos falar de voc. O que andou fazendo, enquanto eu estive fora?

Pensando em voc... Mas, agora quero que me conte o que aconteceu que o deixou assim diferente...

Diferente, como?

Voc sabe o que eu quero dizer! Ah, Joo, como pode esconder de mim alguma coisa?... O que foi?

Ele respirou fundo e endireitou os ombros, antes de dizer:

 por estarmos juntos h tanto tempo que devo lhe dizer a verdade... Eu no suportaria que voc ficasse sabendo por outros.

Verdade sobre o qu? perguntou ela num fio de voz.

Sentia-se j distante dele, como se ele no estivesse ali.

Eu vou me casar.

Quatro palavras, e todo o seu mundo desmoronou. Quatro palavras que a destruram.

Aqui esto, madame!

Era a voz ansiosa de Felicidade.

A duquesa voltou  realidade, emergindo de suas lembranas, e viu que a moa estava de novo na carruagem, sentada  sua frente.

No colo dela estava estendida uma camisola de cetim branco, ricamente trabalhada com uma renda delicadssima.

A outra pea era uma angua tambm com aplicaes de renda.

A duquesa sabia que aquilo custaria uma fortuna em Paris.

Sorriu.

Eu nem preciso lhe dizer que voc  uma excelente bordadeira, Felicidade! Alm de comprar estas peas, quero que faa outras para mim de agora em diante.

Felicidade no conteve um gritinho de alegria e, cruzando as mos, disse:

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Obrigada... obrigada, madame. Como posso lhe mostrar minha gratido? Respirou fundo e acrescentou: Tenho vontade de ajoelhar e rezar como se a senhora fosse uma 
santa!

A voz partiu-se num soluo e ela prosseguiu:

Talvez a senhora seja mesmo uma santa... que mame mandou para mim. Eu j estava to desesperada, to infeliz, que pensei em atirar-me ao mar.

Como pode pensar numa coisa dessas, sendo to bonita assim? disse a duquesa, repetindo as palavras do homem que a salvara, o homem a quem devia sua vida.

Antes eu fosse bonita! Queria ser bonita assim como a senhora! disse Felicidade.

J no sou mais bonita retrucou a duquesa, mas, quando tinha sua idade, eu era.

E tinha sido realmente de uma beleza deslumbrante, no apenas aos dezoito anos.

Aos vinte e trs ficara ainda mais bela, pois desabrochara como uma flor.-

No era s Joo que lhe dizia isso.

Ele gostava de se sentir invejado pelos outros homens, sabendo que Ins queria apenas seu amor e o de mais ningum.

O prncipe me disse que voc era a mulher mais linda que ele j viu! comentou Joo, certa noite, quando estavam em Paris, e tenho certeza de que se eu no estivesse 
aqui ele teria tentado roub-la de mim!

Ins riu.

Ningum conseguiria isso. Ningum. Eu sou sua! S sua, inteirinha, por toda a eternidade!

Palavras profticas... que pareciam estar gravadas em seu corao.

Talvez fosse o preo a se pagar por ser bela, esse, de amar um s homem a vida toda.

Por isso, quando ele foi embora, levou seu corao, que jamais bateria descompassado por nenhum outro homem.

s vezes Ins chegava a pensar que no era mais de carne e osso, nem tinha sangue nas veias.

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Era como um quadro pendurado na parede, ou uma esttua de mrmore.

Ainda sorria, ou at ria, irritava-se e ficava brava, mas faltava o xtase que Joo provocara nela, como tambm o arrebatamento que lhe causavam seus beijos.

Apagaram-se as chamas que nenhum outro homem conseguiu acender, por mais que tentasse.

Porm, houve uma poca, lembrou-se a duquesa, em que se parecera com a moa sentada  sua frente na carruagem, quando todo o seu ser pulsava com as emoes da vida, 
e tudo brotava de seu corao.

Num impulso, seguindo o curso dos prprios pensamentos, ela perguntou:

Voc por acaso j ouviu falar do marqus de Oliveira Vasconcelos?

Felicidade sorriu.

Claro que sim, madame, todos em Lisboa falam dele. A dona da penso onde moro diz que ele  o cavalheiro mais lindo e atraente de Portugal.

Ela o conhece?

A sobrinha dela, que  uma moa muito boazinha,  empregada no Palcio Azul.

A duquesa sabia muito bem como tudo o que acontecia no palcio era imediatamente transmitido pelos criados e seus familiares e amigos.

Os portugueses gostavam muito de falar e comentar os acontecimentos, ningum sabia disso melhor que ela.

Transformavam seus aristocratas em heris, tal como nos tempos antigos adoravam seus reis e rainhas.

Sentindo vontade de saber mais, perguntou:

E o que dizem sobre o marqus atual?

Que  muito bonito, arrebatador, e que muitas mulheres belas so apaixonadas por ele.

Ele no  casado?

Ah, agora no. madame,

o que quer dizer com "agora no"?

Ele casou-se quando era muito jovem. Foi um casamento

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arranjado, e transformou-se num desastre. O marqus e a esposa foram muito infelizes.

O que aconteceu?

Dizem que a esposa dele, contrariando suas ordens, pegou um cavalo dos mais bravos, ainda no domado completamente. O animal derrubou-a ao saltar uma cerca e ela 
quebrou o pescoo na queda!

E eles no tinham filhos?

No, madame. Estavam casados h alguns meses. Dizem, talvez no seja verdade, que, como eles brigavam muito, o marqus ficou feliz ao ver-se livre dela.

E ele nunca se casou de novo?

No, madame. Quando o velho marqus morreu, dizem que toda a famlia lhe implorou que ele voltasse a se casar, ao menos para ter um herdeiro, mas ele sempre recusou.

E por qu?

Porque ele prefere se divertir com muitas mulheres em vez de ter uma s, e tambm porque  muito orgulhoso.

O que tem o orgulho a ver com isso? perguntou a duquesa, admirada.

A dona da penso, que ouve muitos comentrios, diz que  porque ele acha que ningum  suficientemente bom para ele. Comenta-se na cidade que ele conheceu todas 
as jovens da nobreza e acha todas elas tolas e vazias demais para reinarem em seu palcio.

Ela falava com um certo ar de riso, e a duquesa comentou:

Posso entender o problema dele.

Lembrava, ao dizer isso, como Joo lhe falava, quase se desculpando, na ocasio em que ia se casar:

Estou noivo da filha do duque de Cumbria. A me dela era uma princesa real, e ela tem sangue nobre como o meu. Voc deve entender, Ins, que eu preciso ter um herdeiro 
para 
ficar com meu ttulo e minhas propriedades quando eu morrer.

"Ela tem sangue nobre como o meu..."

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A duquesa ainda podia ouvir a voz dele ecoando em seus ouvidos, atravs dos tempos.

Essas palavras tinham-lhe feito perceber pela primeira vez que, embora Joo a amasse, ela seria sempre aos olhos dele uma pessoa inferior!

Uma pessoa que no poderia usar o nome dele nem gerar-lhe um filho.

Foi ento que, olhando para os belos olhos azuis de Felicidade, sentada  sua frente na carruagem, ocorreu-lhe uma ideia.

Uma ideia de vingana por tudo o que seu corao sofrera.
CAPTULO II

A duquesa ficou em silncio, at que por fim disse:

Felicidade, quero que v para sua casa e trate de comer. Estou vendo que voc no tem se alimentado direito, e isso  perigoso para a sade.

Felicidade enrubesceu e retrucou:

Tem sido muito difcil, madame...

Posso entender, mas agora vai ser diferente. Tenho um plano para voc, que lhe contarei mais tarde. Por enquanto faa o que lhe disse.

Dizendo isso, abriu a bolsa e tirou um punhado de escudos, que colocou nas mos de Felicidade. A moa ficou olhando para o dinheiro incrdula, e exclamou:

Mas isso  muito dinheiro, madame!

Isso  pelos seus belos bordados e tambm pelas outras coisas que espero faa para mim mais tarde.

A senhora sabe que farei qualquer coisa! disse com sinceridade.

Era o que eu queria ouvir. Quero v-la forte, saudvel e bem bonita, por isso, trate de comer, como lhe disse. Pea  senhora com quem mora para lhe servir a melhor 
refeio, e quando eu vier busc-la, mais tarde, quero que traga todas as suas coisas.

Trazer todas as minhas coisas? indagou Felicidade, atnita.

Quero que fique morando comigo. 
Acho que voc vai gostar. Mas tambm vai ter que trabalhar bastante.

Ah, madame... ser que no estou sonhando? Isso  verdade mesmo? Sua voz tremeu, e os olhos encheram-se de lgrimas.

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A duquesa riu.

 verdade, sim, e as coisas vo ser bem diferentes para voc de agora em diante.

Quase no consigo acreditar... Tenho sido to infeliz sem pai e sem me, e fico com tanto medo de estar sozinha...

Falava numa voz inaudvel, mas a duquesa ouviu.

Tudo isso acabou disse ela. Agora faa o que eu disse, menina, e esteja pronta quando eu chegar daqui a poucas horas.

Felicidade inclinou-se e beijou a mo da duquesa. Depois, com os olhos brilhando, desceu da carruagem.

Mais uma vez saiu correndo, como se tivesse asas nos ps, e entrou na casa.

A duquesa informou ao lacaio aonde queria ir, e assim que ele subiu na boleia, ao lado do cocheiro, os cavalos puseram-se a caminho.

Passaram por ruas estreitas, com as caladas apinhadas de gente.

Vendedores de bilhetes de loteria misturavam-se a cantores de rua com seus violes, vendedores de frutas com seus cestos e a outros mais que espalhavam suas mercadorias 
no cho.

Pairava no ar um aroma de caf e o cheiro de mar que a brisa trazia.

Perto das fontes, no Rossio, ficavam os vendedores de flores, colorindo a paisagem.

No caminho pela orla do mar, a duquesa passou por arbustos de hibiscos e rvores floridas, sob o cu azul e lmpido.

Saindo do Estoril, o caminho comeou a subir, afastando-se da aldeia de pescadores, com suas cabanas rsticas e casas simples.

 direita erguiam-se os penhascos acima das ondas do Atlntico

A uns dois quilmetros da aldeia estendiam-se campinas verdejantes com algumas rvores. De repente, no meio delas, um pouco escondida, surgiu uma casa solitria.

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Olhando para ela, a duquesa sentiu um aperto no corao.

Ainda estava l!

De certa forma imaginava que a casa abandonada estivesse em runas, como sua prpria vida.

Mas, no. L estava diante dela, inteira, a casa que Joo lhe dera e onde tinham sido to felizes juntos.

A carruagem aproximou-se mais.

Agora podia ver melhor o jardim coberto de flores, tal como na poca em que ficava ali  espera do marqus.

Lembrava-se de que ele lhe dissera, quando comprara a casa:

Vou ficar com voc o mximo que for possvel, meu amor. Se eu cavalgar rpido, levarei vinte minutos do palcio at seus braos!

J  tempo demais sem voc! retrucara Ins.

E ele a beijou longamente, at que ela esqueceu de protestar por qualquer outra coisa.

Chegaram mais perto. Parecia-lhe impossvel que a casa estivesse quase do mesmo jeito.

L estava o terrao onde costumava sentar-se com Joo,

contemplando o mar.

Em cima ficava seu quarto, com a enorme cama do sculo XVIII, ricamente entalhada e com dossel.

Toda vez que se deitava ali, sentia-se uma rainha.

E na verdade era isso que acreditava ser, rainha do corao de Joo, assim como ele era rei no seu.

O cocheiro atravessou os portes abertos, percorreu um caminho ladeado de canteiros floridos e parou diante da porta.

No era o que a duquesa pretendia, mas no tinha explicado ao cocheiro.

Contudo, achava que tendo ido to longe, seria um erro voltar sem ter visto o que queria ver.

O lacaio desceu da boleia.

- - Quer que eu bata na porta, madame? perguntou ele. A duquesa hesitou por um breve instante, depois disse:

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Quero.

O homem obedeceu.

Lembrou-se de que Joo, quando chegava, nunca precisava bater.

Ela sempre o esperava no terrao, ou, quando estava frio, atrs da vidraa.

Via-o de longe, assim que apontava no caminho, montado em seu cavalo.

E a silhueta dele, assim recortada contra o cu e o mar, fazia-o parecer um deus, tal como da primeira vez em que o vira.

A porta de entrada abriu-se e apareceu um criado, surpreso com to inesperada visita.

Estava em mangas de camisa, sem gravata, e ficou atrapalhado ao ver a carruagem l fora.

O lacaio perguntou-lhe pelo patro.

A resposta foi longa, e enquanto falava, o homem gesticulava com as mos.

O lacaio voltou para perto da carruagem.

O homem disse que lamenta muito, madame, mas o patro est na frica. Disse que o nome dele  Nuno Silva.

Chame-o, quero falar com ele retrucou a duquesa. O lacaio fez um sinal para o criado, que se aproximou.

Estou sabendo que seu patro est na frica disse a duquesa gentilmente.

 sim, senhora,  verdade. Ele s vai voltar daqui a trs meses.

Que pena disse a duquesa. Eu queria alugar esta casa por um ms. Sou a duquesa de Moureuil, e acho que ele consideraria meu pedido.

O homem mostrou-se admirado, e ela disse:

Meu mdico recomendou-me repouso, e este seria o lugar ideal para eu repousar sem ser perturbada.

Estou disposta a pagar um bom aluguel para ficar confortavelmente instalada continuou, e 
tenha certeza de que no serei injusta.

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Houve uma breve pausa.

Sabia, pelo brilho dos olhos, que ele entendera o que estava insinuando.

Ento, percebendo que o homem estava imaginando como lhe seria til aquele dinheiro, ela continuou:

Estou disposta a pagar...

Mencionou uma quantia de escudos que sabia ser difcil para qualquer um na mesma situao recusar.

Dez minutos depois j havia conseguido o que queria.

Entregou ao homem uma boa quantia para que comprasse mantimentos e contratasse trs ou quatro empregados.

Depois foi embora.

A senhora no vai querer ver a casa, madame? perguntou o homem, antes que ela partisse.

Sei que  exatamente o que estou procurando retrucou a duquesa, e tenho certeza de que seu patro deve ter muito bom gosto.

Ao sair dali, a duquesa ficou pensando se no teria enlouquecido por voltar assim ao passado.

Sabia que cada aposento daquela casa lhe traria recordaes que ainda doam com a mesma intensidade que no dia em que a deixara.

Contudo, tendo decidido destruir os fantasmas do passado, no queria desistir diante do primeiro obstculo.

Alm do mais, a ideia que se insinuara em sua mente quando estava conversando com Felicidade, diante da casa dela, comeava a tomar forma definida.

Era quase como se estivesse sendo compelida por um impulso adormecido em seu ntimo por tanto tempo que agora se tornara mais forte do que qualquer senso de prudncia.

"Por que estou fazendo isso? perguntara a si prpria repetidas vezes.

A carruagem desceu a encosta, atravessou o Estoril e encaminhou-se para a cidade.

A resposta era simples, e ela a conhecia muito bem. Era para ferir Joo, mesmo depois de morto.

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Por que no o ferir, se ele no a poupara, abandonando-a naquela casa que ela acabara de visitar?

Ins, ento, quisera morrer.

Lembrava-se muito bem de como, depois de ouvi-lo dizer que ia se casar, ficara paralisada por instantes.

No conseguiu pensar, era como se tivesse levado um golpe na cabea e o crebro tivesse parado de funcionar.

Isso ia acabar acontecendo mais cedo ou mais tarde dissera ele. Preciso de um herdeiro para meu ttulo.

Ins ficou imvel, e ele prosseguiu:

Sempre fomos francos um com o outro, Ins, por isso posso lhe dizer que quando conheci a moa com quem devo me casar, achei-a parecida com voc. Percebi, ento, 
que no seria difcil aceit-la e at acabar gostando dela.

Cada palavra dele era como um punhal que se cravava em seu peito.

Ela, porm, continuava meio paralisada, sem conseguir absorver direito o que estava ouvindo.

Agora voc h de entender prosseguiu Joo que continuarmos juntos ser um erro e poder causar um escndalo. Fez uma pequena pausa e disse com suavidade:

Foram anos felizes, Ins, muito felizes para mim. Mas agora eu devo me portar dignamente com minha esposa, e precisamos terminar com tudo entre ns.

Ins nem sabia como ainda continuava em p, diante dele, consciente, e no desmaiara.

Eu j tomei algumas providncias continou Joo, e depositei uma generosa quantia em seu nome, no Banco de Lisboa. Pensei tambm em lhe fazer uma doao desta propriedade, 
mas achei que seria pior.

Ele hesitou um pouco antes de dizer:

Voc pode achar que eu estou sendo indelicado mas tenho certeza de que ser mais feliz afastando-se daqui. Paris pode ser uma boa opo, e sei que no faltaro homens 
que cuidaro de voc como eu tentei fazer.
Ins fechou os olhos.

Como Joo poderia estar lhe dizendo tais coisas?

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Joo, que ela amava com adorao!

Joo, que preenchera sua vida e que jamais poderia ser substitudo por outro homem!

Sabia muito bem o que ele estava insinuando quando lhe sugerira que fosse para Paris, e teve vontade de gritar, horrorizada.

Porm, tinha orgulho, fora educada assim, embora para Joo isso no fosse suficiente.

Seu pai era um gentleman, como diziam os ingleses, e sua me, uma lady.

E foi esse orgulho que a impediu de fazer escndalo, brigar, ou, pior ainda, humilhar-se e ajoelhar-se aos ps dele, suplicando que no a abandonasse.

Teria feito qualquer coisa, at cometido um crime, para no perd-lo.

Mas sabia que seria intil.

Sabia que seu amor no era suficiente para segur-lo, ento as palavras seriam uma total perda de tempo.

Continuou calada, e Joo prosseguiu:

Eu estava com medo de lhe dizer isso, Ins, mas precisava faz-lo. E repito que lhe sou profundamente grato pelos anos maravilhosos que passamos juntos, e, com toda 
a sinceridade, desejo e espero que voc seja feliz.

" um discurso preparado", pensou ela com amargura. "Ele devia t-lo preparado enquanto cavalgava do palcio at aqui".

Joo caminhou para a porta, um tanto constrangido, e acrescentou:

Cuide-se bem, e lembre-se de que eu estarei sempre pronto a ajud-la em qualquer dificuldade.

Ins ouviu a porta da sala fechar-se e os passos dele ecoando no hall.

Todo o seu corpo impelia-se a tentar impedi-lo de ir embora.

Mas sabia que era isso que ele temia que acontecesse.


Amava-o e conhecia-o bem demais para adivinhar seus pensamentos.

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Tinha certeza de que ele ficaria satisfeito de no ter havido cenas.

Por um longo instante, ficou parada onde estava depois que ele saiu.

Tentava entender o que acabara de acontecer e imaginar um futuro sem Joo.

Foi ento que percebeu que no conseguiria.

Era impossvel viver sem ele, porque no havia mais nada na vida alm do seu amor.

Ele a afastara dos pais, dos amigos e de tudo o que lhe era familiar.

Todos os seus pensamentos, expectativas e preocupaes tinham passado a girar em torno dele.

E ele lhe sugerira que fosse para Paris!

Sabia era porque ele no a queria em Portugal, perto do Palcio Azul, onde viveria com a esposa.

Paris era uma lembrana apagada em sua mente.

Mas de uma coisa ela se lembrava: as cenas de amor que tinha vivido na casa alugada dos Champs lyses.

Os lugares que tinham visitado eram apenas cenrios das recordaes dos momentos passados com Joo.

O Bois, porque l cavalgavam juntos pela manh... o Sena, porque tinham passeado s margens dele, namorando... os restaurantes... a Place Vendme... a Madeleine...

No passavam de nomes, borres em sua memria.

As nicas coisas ntidas eram o rosto de Joo e a voz dele.

Ele lhe deixara algum dinheiro no banco. Para qu?

Como pagamento por seu amor ou pelo sofrimento que estava lhe infligindo naquele momento?

Pagamento para que ela se afastasse e o deixasse em paz?

Foi ento que decidiu fazer exatamente isso.

Afastar-se-ia dele e jamais o molestaria.

Tinha conscincia de que a dor que comeava a sentir iria se intensificar, tomando conta de todo o seu ser, a ponto de se tornar insuportvel.

Tomou uma deciso e, movendo-se com lentido, encaminhou-se para fora da casa.

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Atravessou o jardim e o terreno irregular que conduzia  beira dos penhascos.

Tinha imaginado que Joo ficaria para jantarem juntos, e estava usando seu vestido de noite mais bonito.

Em torno do pescoo o colar de brilhantes que ele lhe dera.

Os brincos e pulseiras eram tambm de brilhantes.

Faziam parte da coleo de jias magnficas com que Joo a presenteara para expressar seu amor e realar a beleza dela.

Os sapatos de salto alto dificultavam a caminhada pelo cho arenoso e irregular.

Afinal, chegou  beira dos penhascos.

Dali saa um atalho que descia at a praia, mas que tambm conduzia a um precipcio onde as ondas do Atlntico quebravam com fria sobre as rochas, erguendo espuma 
no ar.

Era uma vista belssima.

Ela e Joo muitas vezes ficavam ali sentados, contemplando as vagas que surgiam no horizonte e vinham estourar nas pedras l embaixo.

Ele passava o brao pelo ombro dela, e Ins se aconchegava em seu peito.

Enquanto contemplavam a paisagem, ora conversavam, ora ele beijava seus cabelos negros e sedosos.

Seus cabelos parecem de seda costumava ele dizer quando estavam na cama. Voc  a mulher mais linda que j conheci.

s vezes, espalhava os cabelos dela sobre o rosto e beijava-a atravs dos fios macios.

O sol j estava baixo e em breve sumiria no horizonte, cedendo lugar  escurido.

" a hora perfeita para se morrer", pensou Ins. "Meu corpo ser levado pelas ondas e no restar uma s lembrana dele,"

Nada de sofrimento, nada de lgrimas.

Ainda no chorara, mas sabia que as lgrimas viriam

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mais tarde, naquela noite e em todas as outras noites, pelo resto de sua vida.

"Morrendo, no vou mais lembrar nem sofrer", pensou ela, e deu mais um passo, aproximando-se da beira do penhasco.

Nesse momento, ouviu uma voz de homem dizer:

Acho que seria um erro fazer uma coisa to perigosa! Ins, tomada de surpresa, gritou de susto e recuou instintivamente.

S ento viu que havia um velho sentado numa pedra ali perto.

Tinha os cabelos brancos e o rosto cheio de rugas, mas aparentava fora e firmeza.

ns no conseguia falar, pois estava traumatizada pela intensidade do que sentia.

Como se compreendesse seu estado, o homem disse, em tom suave:

Venha c me contar por que pretende fazer uma bobagem dessas, sendo to jovem e bonita.

No me resta mais nada a fazer... Conseguiu dizer, afinal. No proferira uma s palavra desde que Joo lhe dissera adeus.

O velho estendeu-lhe a mo.

Venha aqui!

Como estava atordoada pelo choque, e sentindo-se indecisa, ela lhe obedeceu.

Sentiu a mo firme segurando a sua e puxando-a para que se sentasse ao lado dele na pedra.

Agora, conte-me o que a est atormentando disse ele com toda a suavidade.

Demorou um pouco para Ins perceber que ele lhe falara em francs e ela automaticamente respondera na mesma lngua.

Tinha recebido uma excelente educao, no que seu pai no economizara em oferecer-lhe. Por isso falava fluentemente portugus, francs e ingls.

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As palavras do velho soaram mais galantes em francs:

Voc  to bonita, to encantadora que seria um crime contra Deus destruir essa perfeio que  seu corpo.

Meu corpo no tem importncia retrucou Ins, e eu no posso viver se destruram meu corao...

Foi ento, dizendo isso, que percebeu a verdade, e os olhos encheram-se de lgrimas.

Comeou a chorar de mansinho, mas o choro foi se intensificando, sacudindo todo o seu corpo.

Ins nem sequer percebeu que o velho passara o brao por suas costas. Chorou por muito tempo no ombro dele, at que, afinal, as lgrimas diminuram.

- Agora conte-me. Por que est to infeliz e quem a fez sofrer assim.

Ento, ela se deixou levar por um impulso e contou quele desconhecido tudo a respeito de seu amor por Joo.

Disse como ele a amava tambm, no incio, e como a deixara para sempre, s lhe restava morrer.

Como posso continuar vivendo, se a vida no tem mais sentido...? disse com voz embargada. Como posso comer... dormir, rir e falar... se ele no est mais comigo?

Fez uma pausa para tomar flego antes de acrescentar num lamento:

Eu j estou morta! A nica coisa que eu ia fazer agora era entregar o corpo ao mar!...

Isso seria um crime repetiu o velho. Eu tenho uma sugesto, e gostaria que voc a ouvisse com ateno.

Por causa do jeito como ele falava, Ins escutou. Era quase como se ele fosse um anjo que descera do cu para ajud-la.

Eu acho disse o velho com sua voz profunda e sonora que voc no pode continuar vivendo aqui, nessa casa onde foi to feliz, mas creio que seria um erro ir sozinha 
para Paris. Portanto, o que lhe sugiro  que voc morra como pretendia, e depois venha comigo.

Ins ficou sem entender, e olhou-o com os olhos molhados e interrogativos.

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A nica coisa que voc tem a fazer disse ele  deixar que as pessoas que a conhecem, principalmente Joo, seja l quem for, pensem que voc morreu.

 isso o que eu quero...

E  isso o que eles vo pensar. Ela o fitou, atenta, e ele continou:

Voc vai deixar aqui suas roupas e suas jias, e quando eles descobrirem suas coisas intactas, vo achar que voc fez o que ia fazer quando eu a via.

A voz era suave.

Mas eu vou lev-la embora daqui. Voc comear uma vida nova, que ser muito diferente, e com algum que tornar seu sofrimento menor do que  agora.

Mais tarde, Ins chegou a pensar que o velho a hipnotizara para que fizesse o que ele queria.

O choro a deixara to exausta que era difcil pensar com clareza, por isso era mais fcil obedecer-lhe que discutir ou argumentar.

Tirou o rico vestido que comprara em Paris e que, segundo Joo, a deixava linda.

Deixou-o no rochedo, perto da beira do abismo, junto com o colar de brilhantes, os brincos e as pulseiras, como se tivessem sido jogados ali sem o menor cuidado.

Uma vez completamente nua, o velho cobriu-a com o manto que estava usando.

A capa cobria-a do pescoo aos ps.

Ento, ele a conduziu pela trilha sinuosa que ia dar na praia, num trecho mais calmo do mar.

L havia um barco  espera, com dois remadores.

Obedecendo  ordem do velho, eles ajudaram Ins a entrar no barco, onde ela se sentou  popa, ao lado dele.

Ela mal se dava conta do que estava acontecendo, j osremadores cumpriam sua tarefa, afastando-se da praia.

Evitando a arrebentao das ondas, chegaram logo a um enorme iate ancorado na baa de Estoril.

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Ins foi levada a bordo, com a sensao de estar num sonho.

Ouviu o velho dar ordens para levantar ncoras e zarpar. Era como se a voz dele viesse de muito longe. De repente tudo ficou escuro e ela no soube de mais nada.

Ins, ao recobrar a conscincia, encontrou-se deitada numa confortvel cama que percebeu ser de uma cabine de barco.

O mar estava calmo, e dava para sentir a ligeira vibrao dos motores.

"Onde estou?... O que est acontecendo?", perguntou a si mesma.

Movimentou as mos, aflita, e ento algum aproximou-se, segurou-lhe a cabea soerguida e levou-lhe um copo aos lbios.

No sentia sede, mas bebeu porque era mais fcil do que protestar.

Ento, a pessoa a fez deitar-se de novo no travesseiro e Ins fechou os olhos.

No queria pensar, no queria ficar consciente, s queria morrer. E acabou adormecendo.

Quando acordou, percebeu que era de manh e entendeu que haviam lhe dado algo para dormir.

Sentia a boca seca e sabia que isso era efeito de ervas calmantes.

s vezes costumava tom-las quando estava sozinha em casa e no conseguia dormir sem Joo.

O sol se infiltrava pelos lados da cortina que cobria as escotilhas.

O barco oscilava ligeiramente.

Abriu os olhos e viu que estava nua sob as cobertas.

Foi ento que se lembrou do velho sentado na pedra  beira do penhasco.

Ele lhe dissera que poderia morrer para as pessoas que conhecia e continuar viva para comear uma vida nova.

"Ele deve ser louco, e eu tambm, por t-lo escutado!",

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pensou ela. "Onde estou? O que estou fazendo? Preciso voltar".

Ento surgiu a pergunta da qual no se podia fugir.

Voltar para onde? Para quem?

Certamente no para Joo, que no a queria mais e que ia se casar com outra.

Para seus pais tambm no. Teriam pena dela mas, ao mesmo tempo, a recriminariam.

A me lhe havia suplicado que no desse ouvidos s promessas de Joo, que no fosse embora com ele.

O pai a aconselhara, avisando-lhe que estava dando um passo em sua vida do qual ainda se arrependeria muito no futuro.

Ele tinha razo, sem dvida!

No iria suportar a piedade deles.

Era melhor estar morta, disse Ins para si mesma, repetidas vezes.

Lembrou-se do vestido, dos sapatos e das jias jogadas.

 isso, estou morta!" sussurrou.

Fechou os olhos e teve vontade de parar de respirar, perder a conscincia e morrer.

Mas sabia que era impossvel. Talvez conseguisse atirar-se no mar, logo mais.

Ningum poderia impedi-la.

Essa era a soluo, afogar-se.

Talvez do iate fosse mais fcil do que do penhasco.

L, tivera medo de sentir dor ao bater nas pedras, antes de ser levada pelas ondas.

Ali seria mais fcil, bastaria pular na gua.

Ento a porta da cabine abriu-se e ela se sobressaltou.

Anos mais tarde, s vezes ria ao lembrar-se do trabalho que o velho tivera para mant-la viva quando queria tanto morrer.
Ficou sabendo que naquela noite no tinham se afastado muito do Estoril.

Na verdade, tinham ido s at Lisboa.

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De manh bem cedo, antes que acordasse, trouxeram-lhe roupas.

O vestido serviu-lhe quase com perfeio, como se tivesse sido feito sob medida.

Quando j estava vestida e pronta, o camareiro, um marinheiro de meia-idade e pai de famlia, disse-lhe que seu patro a esperava na sala.

Ins quis perguntar o nome do patro dele, mas logo pensou que ele acharia estranho ela no saber.

Em vez disso, subiu a escada, percorreu o corredor e entrou na sala decorada com bom gosto e requinte.

Sentado numa poltrona estava o velho que lhe dissera para viver quando tentava morrer.

Caminhou para ele, embaraada.

Ele se ergueu com uma agilidade surpreendente para a idade que deveria ter, considerando-se os cabelos brancos.

Voc  mais bonita do que eu lembrava disse, em francs, e beijou-lhe a mo.

Acho que, antes de mais nada retrucou Ins, devo perguntar seu nome.  estranho eu ser sua hspede e no o saber.

Uma hspede que me alegro muito em ter a bordo respondeu, amvel. Permita que eu me apresente. Sou o duque de Moureuil.

E eu... comeou Ins.

Ele ergueu a mo para impedi-la de falar.

No, no me diga. Voc no existe mais. Deve lembrar-se de que est morta e no tem passado, mas espero que tenha um maravilhoso futuro, minha encantadora dama.

Ins no pde deixar de rir.

Parecia-lhe to absurdo que mal podia acreditar que aquilo estivesse realmente acontecendo.

Quando voc me contava sua histria ontem disse o duque, fiquei sabendo que seu nome  Ins, e acho que devemos mant-lo, porque  muito bonito. Mas para mim voc 
passa a ser Ins Vental.

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Ele sorriu e prosseguiu:

Acabo de batiz-la, e vamos comear a partir da. Ins, que se havia sentado, disse:

Acho difcil acreditar que isso esteja mesmo acontecendo...

E eu acho difcil acreditar que algum possa ser to bela.

Ins enrubesceu e ele continuou:

Sou um expert em beleza. Vou lhe mostrar meu castelo na Frana e minha casa em Paris. Tenho tambm uma villa em Monte Carlo que voc vai adorar. Alm disso h l 
os cassinos, que atraem todas as mulheres.

Ele falava de um jeito que fazia Ins sentir-se hipnotizada, mas, depois de instantes, ela disse:

Eu queria morrer... Voc me deu uma vida nova, mas estou com medo...

No tem de que ter medo enquanto estiver comigo. Pela primeira vez ocorreu a Ins que ele era um homem. Olhou para ele, desconfiada.

Como se tivesse lido nos olhos dela, ele disse sorrindo:

Minha cara, j estou velho demais, e embora possa admir-la e at ador-la, no posso me tornar seu amante!

A franqueza dele deixou-a sem jeito.

Ins desviou o olhar, querendo dizer que no estava pensando nisso.

Mas no seria verdade, e as palavras morreram-lhe na garganta.

O que pretendo fazer disse o duque, e Ins sabia que ele adivinhara seu pensamento  apresent-la ao mundo como uma beleza sem rival, uma beleza to perfeita que 
far os homens carem a seus ps, e as mulheres sentirem inveja!

Ins riu, achando-o engraado e atraente.

Tenho oitenta anos disse o duque, e achava que j tinha desfrutado todos os prazeres da vida, mas quando a vi percebi haver descoberto um tesouro to incomum e nico, 
que me deu um novo entusiasmo de viver.

Ele riu antes de acrescentar:

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Portanto, como v, eu lhe sou muito grato!

Navegaram para alm de Portugal, rumo ao sul, em direo ao Mediterrneo.

Era impossvel para Ins no se interessar e at se animar com o modo de falar do duque.

Ele era um homem extremamente inteligente, experiente, espirituoso e muito culto, que j percorrera o mundo todo.

Como ela ficou sabendo mais tarde, o duque possua uma coleo de quadros, mveis, porcelana chinesa e cones russos reverenciada pelos grandes conhecedores.

Alm do mais, Ins no podia deixar de gostar dos belos vestidos que ele lhe deu, sem falar nas jias belssimas que jamais sonhara possuir.

 noite, quando estava sozinha, chorava por Joo como uma criana que perdera toda a segurana em seu pequeno mundo.

Outras vezes chorava como mulher que o queria como homem.

Sentia-se torturada como num inferno ao pensar que ele estava dando a outra mulher as carcias que tinham sido s suas.

Bem depressa aprendeu a respeitar o duque, e sua afeio por ele cresceu, embora fosse um sentimento diferente de todos os que j experimentara at ento.

Procurava ser o que ele esperava que fosse, e percebeu que no era muito difcil content-lo.

Ele a exibia com orgulho onde quer que fossem.

Mal estavam juntos h um ano e ela j fora retratada pelos pintores mais famosos da Frana e j posara para os escultores mais importantes de Roma.

Estive pensando, Ins disse-lhe o duque certo dia, em algo bem diferente para dar-lhe de presente de aniversrio

Voc j me deu demais retrucou Ins, e eu lhe sou muito grata. No posso desejar mais nada.

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Ao falar, pensou nas zibelinas, arminhos e outras peles raras que possua. Nos brilhantes e prolas, e no colar de rubis que ele lhe dera no Natal, acompanhado de 
pulseiras e brincos.

No, no quero que me d mais nada! protestou ela. Eu s posso lhe agradecer por tudo o que j tenho.

Esse presente  diferente disse o duque, e o que vou pr em sua mo  bem pequeninho.

Se est querendo que eu adivinhe, francamente, eu no tenho a menor ideia do que possa ser.

Pois bem, ento vou lhe dizer. Estou lhe pedindo que se torne minha esposa, Ins, para que herde meu ttulo quando eu me for, o que inevitavelmente acontecer.

Ins fitou-o, atnita, olhos arregalados.

Nunca, nem por um momento, pensara em se casar com o duque. Simplesmente porque aprendera com Joo, a duras penas, que no tinha bero para ser esposa de um marqus.

Era impossvel que o duque de Monreuil, um dos aristocratas mais importantes da Frana, fosse lhe oferecer casamento.

Voc est me dizendo...? balbuciou ela.

Estou lhe dizendo que vamos nos casar amanh, em minha capela particular. O capelo j est avisado.

Ins ergueu-se do sof onde estava, atravessou a sala e ajoelhou-se aos ps dele.

Eu entendi o que est me oferecendo, mas estar agindo bem? Ser que  o certo para voc?

 o que eu quero fazer, portanto,  o certo para mim! Ergueu a mo e tocou o rosto dela, dizendo:

Voc me fez muito feliz nesse ano que passou, e embora eu espere poder ficar mais tempo ao seu lado, quero me certificar de que voc fique protegida quando eu morrer.

Mas voc no pode morrer!

De repente ela sentiu um medo terrvel de ser deixada sozinha no mundo novamente, e no ter quem a protegesse dos homens que a perseguiriam se no estivesse acompanhada 
pelo duque.

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Sempre fugira dos homens, nunca deixara que outro a tocasse ou a beijasse.

Joo roubara seu corao, e ela sentia que seu corpo ainda pertencia a ele.

Dava-lhe averso a simples ideia de fazer amor com outro homem.

O duque, que  observava, disse, como se soubesse em que estava pensando:

Exatamente por isso, minha querida, voc estar bem mais segura sendo a duquesa de Monreuil que uma mulher s, alvo de conquistas, principalmente sendo to bonita 
quanto .

Ins acariciou o rosto dele, dizendo:

Mas eu no estou  altura...

Sua beleza est  altura de qualquer ttulo! Ela riu.

E assim, embora parecesse incrvel, na noite seguinte tornou-se duquesa de Monreuil. Porm, continou dormindo sozinha.

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CAPTULO III

A duquesa voltou para o Grande Hotel e disse ao gerente que estava de partida.

 uma pena, madame disse ele, consternado.

Encontrei uma casa onde gostaria de ficar por algumas semanas, por ser tranquila explicou a duquesa.

O gerente ainda continuou com ar preocupado, por isso ela acrescentou:

Sou-lhe muito grata por ter cuidado to bem de mim, mas agora vou avisar minha criada para fazer as malas. Quando a bagagem estiver pronta, peo que o senhor providencie 
uma carruagem, para que ela v ao meu encontro.

Certamente farei tudo o que madame desejar!

Depois de distribuir generosas gorjetas a todos, a duquesa voltou para a carruagem e mandou seguir para a casa de Felicidade.

No se admirou ao ver a moa esperando na porta, ansiosa.

Sabia quanto ela temia que sua benfeitora pudesse ter mudado de ideia.

Ao ver a carruagem da duquesa aproximando-se, ela pulou de alegria, como uma criana, depois desceu correndo os degraus at a calada.

A senhora veio... A senhora veio! exclamou ela, assim que a carruagem parou.

Eu sempre cumpro minha palavra disse a duquesa, tranquila. Estou vendo que j arrumou sua bagagem.

Tenho muito poucas coisas... Tive que me desfazer de quase tudo quando minha me ficou doente...


A duquesa entendeu que ela precisaria vender tudo o que tinha valor, para comprar comida.

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O lacaio colocou o pequeno ba na carruagem. Felicidade entrou e sentou-se no assento que ocupara antes.

Voc comeu alguma coisa? perguntou a duquesa.

Eu paguei a dona da penso, e ela ficou to contente que me deu um pouco da comida que preparou para o filho.

E est se sentindo melhor?

Muito, muito melhor, madame! Mas principalmente entusiasmada de estar acompanhando a senhora.

Estavam percorrendo a estrada ao longo da costa, que conduzia para fora do Estoril.

A duquesa percebeu que Felicidade estava curiosa, mas manteve-se em silncio.

A moa, por ser bem-educada, no fez perguntas.

A duquesa ia planejando os prximos passos, e as peas do quebra-cabea iam se encaixando.

Tinha ido at sua suite no hotel e pegara um livro encapado em couro vermelho, ornamentado com ouro, que pertencera ao duque.

Ele se interessava por genealogia, e compilara durante anos a histria da famlia Monreuil.

Orgulhava-se de poder traar a linha de seus ancestrais at Carlos Magno.

Tinha mostrado vrias vezes aquele livro a Ins, e ela, como fora includa entre as outras duquesas de Monreuil procurara interessar-se, embora aquilo tudo para 
ela no passava de nomes vazios.

Achava difcil acompanhar a expanso da famlia no s por toda a Frana, mas por todos os reinados e principados da Europa.

Naquele momento, empenhada em descobrir exatamente quem estava mais diretamente relacionado com o duque, encontrou o que procurava.

O irmo mais moo dele, que havia herdado o ttulo quando ele morrera, tinha dois filhos, e havia se estabelecido na frica Ocidental Francesa.

Gostava do clima quente, da vida ao sol, e reinava sobre um vasto territrio.

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O segundo irmo, conforme seu marido dizia, fora uma grande decepo.

Recusara-se a se casar com a aristocrata escolhida para ele e levara uma vida devassa e desregrada, escandalizando Paris, at que por fim foi mandado para o Brasil, 
onde morreu em 1873.

A duquesa no se interessara muito por ele, principalmente ao saber que fazia uso de drogas.

Naquele momento, porm, imaginava se ele teria ou no se casado, quando viu entre os escritos do marido:

"Aps sua morte, trs mulheres proclamaram ter se casado com ele: uma mexicana, uma chilena e uma inglesa.

Todas receberam dinheiro, e o desagradvel incidente foi esquecido."

Exatamente o que a duquesa queria! Escrevendo tambm a lpis e imitando a letra, ela acrescentou:

"Surgiu mais tarde uma filha do casamento ingls, nascida em 1872 e batizada como Felicity Beatrice Jeanne".

Era como se estivesse brincando com o destino e dirigindo a tragdia ou comdia que aquilo poderia vir a ser.

"Ela tem sangue nobre como o meu..." A duquesa ainda ouvia a voz de Joo dizendo isso, ecoando nas ondas que se debatiam nos rochedos, no rudo cadenciado dos cascos 
dos cavalos subindo a colina, rumo  casa que outrora fora seu paraso de felicidade.

"Ela tem sangue nobre como o meu..."

Teve vontade de rir, e sabia que ainda riria muito um dia, quando seu plano desse frutos.

A duquesa desceu da carruagem e caminhou com dignidade, subindo os degraus e entrando no hall.

O criado com quem negociara, e que se chamava Pedro, segurava a porta aberta para ela.

Estava usando uma libr com botes de prata, onde estava gravado o braso do conde Nuno da Silva.


Seja bem-vinda, senhora disse ele, fazendo uma reverncia.

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As outras duas criadas fizeram o mesmo.

A duquesa entrou na sala, que se estendia por toda a largura da casa e dava para um terrao.

Estava mobiliada num estilo diferente de outrora quando era sua, mas com muito bom gosto.

Admirou os quadros, que no s eram valiosos como tambm agradveis de olhar.

Tinham sido providenciados vasos com flores, que perfumavam o ambiente.

Enquanto ela examinava tudo  volta, Pedro trouxe uma bandeja com petit-fours e um aperitivo.

Sentou-se, e percebeu que Felicidade esperava permisso para fazer o mesmo.

Sente-se, menina disse ela. Tenho certeza de que vai gostar desses petiscos, apesar de j ter comido.

Ela prpria no estava com fome, mas comeu um, para deixar Felicidade  vontade. Quando Pedro saiu, Felicidade perguntou, com espanto:

A senhora vai se hospedar aqui, madame?...

Ns duas vamos nos hospedar.

Viu o brilho de euforia nos olhos de Felicidade, e acrescentou:

Enquanto desfazem nossas malas, quero conversar muito seriamente com voc. Creio que vai achar vantajoso para voc o que vou lhe propor.

Felicidade ficou surpresa, mas esperou, obediente, olhando atentamente para a duquesa.

Por razes que no desejo mencionar agora, quero que voc me ajude.

A senhora sabe que farei qualquer coisa para ajudla, madame disse Felicidade. S espero que esteja ao meu alcance...

A duquesa entendeu que a moa estava com medo de falhar e decepcionar quem a tratara com tanta bondade, e tratara de explicar.

Est a seu alcance, sim, e no ser difcil, se usar inteligncia.

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Fez uma pausa.

Estava novamente pensando em Joo e em como costumavam ficar sentados ali naquela sala, conversando sobre tantas coisas interessantes.

Seu pai a educara bem e a instrura, desenvolvendo sua inteligncia.

Mas Joo a fizera desenvolver-se muito mais, fazendo-a pensar de vrios modos diferentes.

Nos sales de Paris ela era descrita como inteligente, espirituosa e muito interessante por todos com quem conversara.

 disse ela, prosseguindo, voc vai ter de ser inteligente e fazer exatamente o que eu lhe disser.

Claro, eu o farei, madame.

Ento, o que eu quero que faa  fingir ser sobrinha de meu falecido marido.

Felicidade respirou fundo, atnita, e a duquesa prosseguiu.

O nome dela, por incrvel que parea,  Felicity Beatrice Jeanne de Monreuil, e ela  meio inglesa.

Mas o que ela diria se soubesse...?

Ela j morreu retrucou a duquesa, e  por isso que no posso mais faz-la conhecer certa pessoa, como eu gostaria. Em vez disso, ele vai conhecer voc.

A senhora acha que ele no vai desconfiar?

No h razo para desconfiar, a menos que voc faa alguma tolice muito grande.

Notou preocupao em seu olhar e prosseguiu:

Como duquesa de Monreuil, sou conhecida na maioria dos pases europeus, e algum precisaria ter muita coragem e ousadia para dizer que menti, ou at mesmo para desconfiar 
que eu pudesse fazer isso.

Fez-se uma pausa, depois Felicidade respondeu:

Eu ficarei um pouco nervosa, com medo de cometer erros... mas  claro que ser uma honra fingir ser parente de algum to distinto quanto a senhora, madame...

A duquesa sorriu.

Gostou do modo gracioso com que Felicidade aceitara sua proposta.

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Fico contente que tenha concordado. Agora s precisamos providenciar para que voc se vista de acordo com a posio que ir ocupar na sociedade.

Sorriu de novo e prosseguiu:

Precisamos tambm providenciar para que voc se porte como seria de se esperar de uma aristocrata.

Felicidade apertou as mos, aflita.

Por favor, madame, ensine-me, ajude-me a no cometer erros. Seria muito humilhante...

Sugiro que voc comece me imitando.

Ao falar, lembrou-se de como primeiro Joo, depois o duque, corrigiam qualquer pequeno deslize seu.

Era porque a queriam perfeita, to perfeita nas atitudes quanto era na aparncia.

Costumava posar nua para ele, porque o fazia feliz.

Ele nunca a tocou, apenas gostava de contempl-la.

Por isso Ins no sentia vergonha. Sabia que a emoo dele era a mesma que sentia diante das esttuas que pssua em seu castelo na Frana e na casa em Paris.

Fora o duque quem melhor a ensinara a vestir-se.

O marqus apenas gostava de v-la esplendorosa nos belos vestidos, atraindo a admirao de todos os homens presentes.

Mas, para o duque, vestir-se era uma arte.

Como todos os franceses, ele se comprazia em ficar horas conversando com Frederick Worth, ou algum outro grande costureiro, para decidir o que ficava melhor em Ins.

Ela aprendeu a fazer da roupa uma moldura para sua beleza.

Por isso, ainda agora escolhia s o que suavizava as marcas do tempo, escondia as alteraes em seu corpo, e lhe proporcionava uma aura de beleza e dignidade.

Amanh disse a duquesa a Felicidade os melhores costureiros de Lisboa viro aqui para que possamos escolher roupas que a deixaro bem diferente do que  hoje.

Roupas! Ah, madame, eu no tenho um vestido novo h anos! Eu mesma fao as peas que uso, mas nem sempre podia comprar os melhores tecidos, e no ano passado no 
pude comprar tecido algum!

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Pois esquea isso disse a duquesa, esquea tudo o que sofreu, o que voc foi ou o que aconteceu em sua vida.

Fez uma pausa e prosseguiu com firmeza:

Seus pais esto mortos. Seu pai, no esquea, era um Momreuil, e sua me, filha de um duque ingls que voc no chegou a conhecer.

Achou que o duque se zangaria com ela por alterar a histria da famlia daquela maneira. Contudo, estava decidida a fazer com que Felicidade se orgulhasse de seus 
antepassados.

Voc ser uma aristocrata, uma aristocrata da cabea aos ps, pois o sangue que corre nas veias de um nobre  igual ao de qualquer pessoa do mundo!

Havia uma ponta de amargura em sua voz ao finalizar:

Na verdade, no h ningum, superior a voc na Frana, embora talvez o marqus lvaro de Oliveira Vasconcelos no se considerasse inferior a voc.

Inesperadamente, Felicidade riu.

O marqus?! Imagine, logo ele, que se considera melhor do que todos em Portugal! E eu acho que at na Frana!

Pois  justamente por isso que devemos iludi-lo! Felicidade olhou-a, espantada.

O marqus...?

Quero que voc o conhea, minha filha, e seria decepcionante se ele a considerasse insignificante.

Felicidade riu de novo.

Mas  exatamente isso o que ele vai achar de mim!

No se ele pensar que voc  uma Monreuil. Felicidade respirou fundo.

Est me dizendo, madame, que eu vou ter de fingir para o marqus?

Claro! Voc  a condessa Felicity de Monreuil, minha sobrinha.

Mas por qu...?

A duquesa mudou o tom de voz.

Voc ja prometeu o que lhe pedi e me obedecer disse ela com certa rispidez. Portanto, nada de perguntas. Trate de se convencer do papel que tem a desempenhar, 

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e eu quero deixar isso bem claro... Fez uma pausa e acrescentou, falando mais devagar.

Felicidade Galvo morreu, entendeu? Ela no existe mais. A partir de agora, estou falando com minha sobrinha.

Felicidade percebeu que cometera um erro, e, de cabea baixa, murmurou:

Sim, senhora, eu entendo.

Muito bem. Voc vai me chamar de tia Ins, e como somos parentes, da mesma famlia, no h necessidade de cerimnias entre ns...

Sim, senhora.

A duquesa ergueu-se.

Hoje foi um dia cansativo, e eu estou exausta, por isso pretendo jantar na cama. Voc comer sozinha na sala, servida pelas criadas, mas nada de conversar com elas, 
naturalmente. Depois voc tambm ir para seu quarto.

Sim, senhora.

A duquesa atravessou o aposento. Felicidade apressou-se em abrir-lhe a porta, e ela colocou a mo no brao da moa.

Ns vamos nos divertir muito, voc e eu disse com suavidade.

Viu as lgrimas inundarem os olhos azuis de Felicidade.

Quando a duquesa se foi, ela ficou por instantes parada, indecisa, depois caminhou at a porta envidraada que dava para o terrao.

Olhou para fora, contemplando o mar, que se tornara mais revolto, agora que a tarde chegava ao fim.

O vento soprou forte, empurrando as ondas contra os rochedos.

Ainda se via a espuma erguida brilhando aos ltimos raios do sol poente.

Aquele crepsculo era de certo modo assustador para Felicidade, como se retratasse o que havia no prprio corao.

Tudo aquilo havia acontecido de modo to inesperado!

Quando acordara nessa manh, jamais poderia ter imaginado ou adivinhado o que aconteceria!

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Tudo o que pensara era que se no vendesse suas ltimas trs peas, seria melhor afogar-se do que morrer lentamente de inanio.

J estava muito fraca por alimentar-se mal.

Seus olhos comeavam a ser afetados, e ficava mais difcil costurar como antes.

Perguntou-se mais uma vez como as coisas podiam ter chegado a esse ponto.

E a explicao era fcil.

Os livros de poesia de seu pai, por mais belos que fossem, no vendiam muito.

Sua me costumava dizer que ele expressava a beleza em palavras, da mesma forma que outros usavam a pintura ou a msica.

Felicidade sabia que a poesia dele era mais bela do que a de muitos poetas aclamados em Portugal.

Desde criana que o pai lhe dava seus poemas para ler em voz alta. Conhecia-os bem, portanto.

Voc precisa aprender a ouvir a melodia das palavras dizia ele. Assim, instintivamente voc tambm vai falar com beleza.

Felicidade achava que o pai lhe transmitira a beleza de vrias maneiras diferentes.

Fizera-a entender o grande amor que ele e a me dela sentiam um pelo outro, e que o fato de serem pobres no tinha importncia.

O problema era que em Portugal havia muitos poetas, e embora os portugueses admirassem seu talento, no compravam seus livros.

Tinham pouco dinheiro e precisavam sempre fazer economia, mas Felicidade no se importava com isso.

Sua me, entretanto, s vezes suspirava por no poderem gastar com os quitutes de que o marido gostava.

Ento, quando o seu pai morreu, acabou-se tambm o pouco dinheiro que ele ganhava com a venda dos livros.



Conseguiam sobreviver com a msera penso que a me recebia mensalmente.

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Ento sua me morreu tambm, e Felicidade viu-se sozinha, completamente sem dinheiro, a no ser o pouco que ganhava com suas costuras e bordados.

No incio ainda conseguia vender a bela lingerie que fazia para turistas que se hospedavam nos melhores hotis de Lisboa.

Mas logo os logistas comearam a reclamar, dizendo que os vendedores ambulantes lhes roubavam a freguesia.

Por isso, aos poucos, os hotis foram impedindo o acesso de Felicidade a seus hspedes.

Apenas o gerente do Grande Hotel s vezes cedia s suas splicas, por ser um homem bondoso.

Ele havia perdido a filha durante uma epidemia de tifo, alguns anos antes.

Mesmo assim, os hspedes do Grande Hotel eram em geral muito idosos para se interessarem por belas lingeries.

Quando Felicidade foi ao hotel naquela manh, estava desesperada. Era sua ltima chance.

Pensava que seria melhor morrer do que viver como estava, constantemente com medo e sentindo o estmago doer de fome.

E agora, como num milagre, tudo mudara.

Sabia que devia ter sido sua me que a salvara no ltimo momento.

"Obrigada, mame, obrigada...", murmurou, contemplando o mar.

Quase podia sentir a me a seu lado, enquanto continuava a conversar com ela em pensamento:

"A duquesa  to boazinha! Mas eu tenho um pouco de medo de decepcion-la no que tenho de fazer. Ser que  errado, mame, fingir ser outra pessoa?"

Mas no obteve resposta.

Felicidade viu os ltimos raios de sol tingirem as ondas de vermelho, e sentiu que isso era um sinal de que tudo daria certo.

Virou-se, com um sorriso nos lbios, para entrar de novo na sala.

L "em cima, em seu quarto, a duquesa tambm achava tudo aquilo inacreditvel.

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Tinha tomado banho e estava agora na cama, recostada nos travesseiros forrados de seda.

Era como se tivesse voltado ao passado.

Fora nesse quarto que Joo a fizera conhecer um paraso onde s existiam eles dois e um xtase muito alm das palavras.

Ficavam deitados juntos na cama, ouvindo as ondas ao longe.

Quase sempre abriam as cortinas para poderem ficar olhando as estrelas.

Voc  a nica estrela da minha vida disse Joo certa vez, e agora vai brilhar s para mim, iluminando meu corao.

Ele dizia coisas que a faziam quase chorar de felicidade.

Gostava de sentir-se a estrela que o guiava e inspirava, enriquecendo a vida dele.

Porm, tudo no passara de um sonho.

Quando acordara para a realidade, estava sozinha, sem Joo.

Mesmo agora, depois de todos esses anos, ainda sofria.

Melanclica, perguntou-se como fora cometer a tolice de voltar. No s a Portugal, mas, pior ainda,  casa onde tinham vivido juntos.

Entretanto, no fundo, sabia que tudo fazia parte de um plano tramado no por ela, mas pelo prprio destino.

Assim como os pecados dos pais recaem sobre os filhos, o filho de Joo pagaria o dbito que o pai tinha com ela.

No que odiasse Joo.

O que sentia era pungente demais para ser dio.

Na verdade, ainda o amava, amava-o perdidamente, como quando viviam juntos.

Sabia que, se Joo tivesse lhe pedido para morrer por ele, teria morrido sem hesitar.

Isso seria muito diferente de morrer porque no podia viver sem ele.

Quando quisera se jogar no mar, fora um ato de total e completo desespero. em se no havia ressentimento ou dio por ele.

Contudo, agora que voltara para destruir aquele fantasma 

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sempre presente, resolvera fazer com que o filho dele sofresse apenas um pouco do que ela sofrera durante todos aqueles anos.

Rememorando o que acontecera, tinha de admitir que tivera muita sorte ao ser salva pelo duque.

Ele tornara sua vida interessante e cheia de alegrias. Mesmo assim, a nica coisa que no podia lhe dar era o amor que um homem sente por uma mulher.

Claro que muitos homens lhe haviam oferecido amor. Principalmente depois que o duque morrera e ela ficara sozinha.

Ins ainda era uma bela mulher, mas, naquela ocasio, rica, proprietria de uma casa em Paris e uma villa em Mnaco.

Era suficientemente rica para ir a qualquer lugar do mundo. Londres, Viena, Roma... todos os lugares que j visitara com o duque.

Tinha certeza de que seria recebida e festejada como se fosse da realeza.

Muitos homens se sentiam atrados pela beleza de Ins, alm da aura de luxo que a envolvia.

Qualquer um deles estaria disposto a cair a seus ps e entregar-lhe o corao.

Ins acabou sucumbindo uma ou duas vezes as splicas deles e aceitara-os como amantes, para logo descobrir que no podiam passar de tentativas frustradas de reencontrar 
o amor.

Alguma coisa em seu ntimo retrara-se, com horror, opondo resistncia ao contato de outro homem, deixando-a fria.

No era culpa dos homens, mas sua nica reao ao fazer amor com eles foi uma repugnncia difcil de esconder.

Ins sabia que era conhecida como "A Fria".

Sorriu com amargura ao pensar nisso.

Lembrou-se do ardor que a arrebatava e das labaredas de paixo que a consumiam quando Joo a tocava, dos sussurros e gemidos de xtase que invadiam a noite toda 
vez que ele a possua.

Lembrou-se tambm de como seu corpo todo ardia de desejo, clamando por ele, quando Joo estava longe.

E mais uma vez perguntou-se por que voltara.

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Depois lembrou-se do filho de Joo, que vivia no Palcio Azul.

Sabia que devia ir l, v-lo e certificar-se de que ele se parecia com o pai.

Se ele fosse mesmo parecido pagaria por isso.

Pagaria um preo que era apenas uma pequena frao do que ela sofrera aqueles anos todos por ter perdido seu amor.

Felicidade acordou cedo, como estava acostumada a fazer.

Sentindo-se alvoroada, pulou logo da cama e correu para a janela a fim de olhar o mar.

Na noite anterior, sentira-se como se estivesse vivendo um sonho, sentada sozinha na luxuosa sala de jantar, servida por Pedro e o jovem lacaio contratado para ajud-lo.

A refeio fora deliciosa, regada a vinho branco,

Porm, depois dos dois primeiros pratos, Felicidade, que vinha se alimentando mal h muito tempo, no conseguiu comer mais nada.

Saiu da mesa meio sem jeito, achando que o cozinheiro ficaria decepcionado com as travessas que voltariam intactas.

Estava muito cansada e foi direto para seu quarto, que tambm dava para o mar, tal como o da duquesa.

A moblia era belssima, de madeira entalhada, os quadros, dignos de uma galeria de arte.

Contudo, Felicidade estava cansada demais para apreciar qualquer coisa que no fosse a maciez da cama.

O sono a colheu em meio s preces de agradecimento a Deus por no estar mais sozinha, passando privaes.

Pela manh aproveitou para conhecer o jardim, depois foi at a beira do penhasco contemplar o mar que o sol fazia brilhar, antes que Pedro a chamasse para tomar 
caf.

No se surpreendeu de fazer essa refeio tambm sozinha.

Imaginava que a duquesa no fosse querer levantar-se cedo.

Comeu uma omelete deliciosa com croissants ainda quemtes, e quando terminou ouviu a criada de quarto da duquesa dizer-lhe da porta da sala:




A duquesa deseja v-la mademoiselle.

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Felicidade ergueu-se, ansiosa.

Como na noite anterior no fora apresentada  criada de quarto da duquesa, estendeu a mo para ela, dizendo:

Bonjour! Sei que voc cuida de... minha tia.

Foi difcil dizer essas palavras, e Felicidade corou ao dizlas. Mas sabia que era o que a duquesa gostaria que fizesse.

 certo, mamselle retrucou a criada. H quinze anos que estou com madame, e acho que ela j no pode passar sem mim.

Tenho certeza de que seria impossvel! Felicidade sorriu.

Subiu depressa a escada, indo na frente da criada, em direo ao quarto da duquesa.

Encontrou-a sentada na cama, j maquilada com p e rouge, e vestindo um penhoar cor-de-rosa enfeitado com rendas valencianas.

Bom dia, Felicidade disse a duquesa ao v-la entrar. Dormiu bem?

Felicidade fez uma reverncia antes de falar:

Muito bem, obrigada, tia Ins. Acabei de tomar um belo caf!

Percebeu o olhar de aprovao da duquesa, que respondeu:

Isso  bom! Agora Pedro me disse que as costureiras chegaram, e precisamos comear a vesti-la como merece uma sobrinha minha.

Mal acabou de falar e Pedro fez entrar no quarto duas mulheres portuguesas de meia-idade.

Pelo entusiasmo delas, era de notar que esperavam uma grande encomenda de algum to importante quanto a duquesa.

E no ficaram decepcionadas.

Duas horas depois Felicidade havia experimentado dezenas de vestidos. Alguns eram grandes demais para ela e precisariam ser ajustados; outros caam-lhe perfeitamente, 
e foram aprovados pela duquesa que encomendou mais doze.

As costureiras, entusiasmadas, voltaram depressa para Lisboa.

Havia a promessa de um pagamento extra se conseguissem 

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aprontar a encomenda em quarenta e oito horas.

Isso  impossvel, madame disse uma das costureiras. Mas, antes que a duquesa pudesse retrucar, a outra acrescentou logo:

No, no,  possvel, sim, e vai ser feito! Depois que as mulheres se foram, Felicidade disse:

Como posso agradecer-lhe? Como posso lhe dizer o quanto aprecio ter roupas to lindas?

Lembre-se de que elas so apenas uma moldura para sua beleza disse a duquesa, citando o duque.

Repetia as palavras que ele lhe dissera h muitos anos e que ela nunca esquecera.

O que a senhora quer que eu faa?

Depois do almoo vamos ao Palcio Azul, fazer uma visita ao marqus lvaro.

Felicidade arregalou os olhos, admirada.

O pai dele foi amigo meu acrescentou a duquesa, um grande amigo!

Ao dizer isso, teve a sensao de ouvir a risada de Joo.

A carruagem, a mesma que a duquesa alugara no dia anterior, levou-as pela ngreme estrada que conduzia ao Palcio Azul, no topo da colina.

Enquanto se encaminhavam para l, a duquesa ia lembrando a beleza das torres recortadas contra o cu azul.

Pensou em quantas vezes j percorrera aquele caminho, impaciente, achando que os cavalos no eram suficientemente rpidos, querendo chegar depressa aos braos de 
Joo, que a esperava.

A colina era bem alta, e s vezes o palcio ficava envolto em neblina, como se estivesse dentro do paraso para o qual Joo a levara.

Quando chegava, era imediatamente conduzida ao quarto, onde Joo a esperava.

Olhava-o, ento, como se fosse um deus, e assim que ficavam a ss, corria para ele, que a envolvia nos braos e a beijava.

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Beijava-a at que o enorme quarto, com suas colunas, mrmores e candelabros, parecia diluir-se  volta deles.

s vezes levava-a at a janela para contemplarem a vista, a encosta verdejante, com rvores copadas, que descia at o vale, e, mais alm, o mar.

Quando estava ali com ele, assim, costumava pensar que ela e Joo eram especiais, diferentes dos outros, e estavam acima das dificuldades e sofrimentos.

A felicidade deles era to perfeita que parecia no ter fim jamais.

A duquesa percebeu que Felicidade contemplava o palcio de olhos arregalados.

O sol iluminava os minaretes rabes e as cpulas verdes.

Parece sado de um conto de fadas! exclamou ela, com admirao.

Era o que a duquesa tambm pensara. E agora estava vendo-o de novo, com seus jardins coloridos de flores. L estavam as velhas fontes de pedra que ela conhecia to 
bem!

Por um instante teve a sensao de estar afinal voltando para casa.

Ento, com amargura, lembrou-se da realidade: seu sangue no era to nobre e no lhe dava o direito de viver ali!

S o que lhe cabia era esgueirar-se sorrateiramente, como um ladro na calada da noite, e sair do mesmo modo, para que ningum importante a visse.

Sempre fora, embora na ocasio no tivesse percebido, algo vergonhoso, que precisava ser escondido e ignorado, a no ser quando convinha a seu "amo e senhor".

Era isso que Joo tinha sido.

E o palcio era um cenrio perfeito. Estranho e imprevisvel, uma mistura de diferentes culturas, diferentes civilizaes, diferentes afetos.

A carruagem parou perto da porta.

Dois lacaios desenrolaram um tapete vermelho e um criado aproximou-se da carruagem.

Sou a duquesa de Monreuil, e gostaria, se for possvel, de falar com o marqus lvaro.

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O criado curvou-se.

Vou me informar, madame, se meu senhor pode receb-la.

Felicidade no tirava os olhos das fontes.

A duquesa olhou para ela e concluiu que seria impossvel alguma outra moa parecer mais bonita e encantadora.

Estava usando um dos vestidos novos, de seda azul, da mesma cor dos olhos.

Era um modelo simples, prprio para uma moa daquela idade, contudo, realava as curvas suaves de seu corpo ainda imaturo.

O chapu, que no escondia seus cabelos negros, era enfeitado com pequenas flores.

O contraste dos cabelos escuros com a pele muito clara e os olhos azuis dava um efeito raro  sua beleza, de tal modo que s se um homem fosse cego no a notaria.

O criado voltou.

Meu senhor ficar honrado com a visita da senhora, madame.

A duquesa desceu da carruagem, e Felicidade a seguiu.

Entraram no enorme hall.

Havia esttuas de pedra e uma grande escada em curva, com grade trabalhada, que levava ao andar de cima.

Atravessaram o hall, enquanto dois lacaios abriam as portas do salo.

A duquesa teve vontade de fechar os olhos. Conhecia to bem tudo o que veria ali!

A sala era longa, com janelas que davam para um terrao, de onde a vista era um deleite.

Havia grandes candelabros, e a bela moblia era entalhada.

Os quadros passavam de gerao a gerao.

Diante da lareira havia um homem de p. Por uns instantes, a duquesa ficou paralisada.

Era Joo que estava ali! Joo, exatamente, como se lembrava dele.

Ento ele encaminhou-se para elas.

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Mas que prazer inesperado disse ele, numa voz to parecida com a de Joo que era um suplcio ouvi-la. Eu a vi de longe da ltima vez que estive em Paris, mas no 
sabia que estava agora em Portugal. Finalmente posso ter o prazer de conhec-la!

Voc  muito gentil disse a duquesa. Talvez no saiba, mas conheci seu pai e queria que minha sobrinha, a condessa Felicity de Monreuil, conhecesse o seu "Palcio 
das Nuvens", como muitas vezes o descrevi a ela.

O marqus riu.

 uma boa denominao! Estendeu a mo para Felicidade.

A duquesa notou com satisfao o olhar de admirao com que ele contemplava a moa.

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CAPTULO IV

Para Felicidade, o palcio era algo que nem em sonhos podia imaginar, no s pelos magnficos quadros e todas as preciosidades que havia ali dentro, mas principalmente 
pelo clima que pairava no ambiente e que parecia contagila, deixando-a alvoroada.

A duquesa convencera o marqus a mostrar-lhe o palcio.

Felicidade olhava para tudo atenta. No perdia um s detalhe, nem mesmo que a duquesa parecia estar sofrendo  medida que percorriam os aposentos. S no entendia 
por qu.

A certa altura o marqus disse, um tanto sem jeito:

Acho que j viram o bastante...

Porm a duquesa insistiu em que deviam continuar a ver o resto.

Felicidade notou que a duquesa respirava fundo e suspirava, quase como se lhe faltasse flego.

Tinha bastante sensibilidade e perspiccia para perceber as coisas, qualidades que seu pai a fizera desenvolver com a leitura de seus poemas e os de Lus de Cames, 
o maior poeta portugus.

Alm dos objetos todos que a estavam impressionando naquele palcio, havia a presena do marqus.

Jamais imaginara que pudesse existir um homem to atraente, bonito e msculo.

Achou-o cheio de vida e luz, e sentiu que a proximidade dele a perturbava.

Quando por fim voltaram ao salo, o marqus perguntou:


Era assim que a senhora se lembrava dele, duquesa?

, exatamente como eu me lembrava.

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O marqus ergueu as sobrancelhas, como se estivesse surpreso, mas no disse nada.

Porm Felicidade percebeu que ele esperava que a duquesa admirasse as alteraes que ele fizera; que elogiasse a moblia e os quadros que adquirira depois da morte 
do pai, e que mostrara enquanto percorriam as salas.

Felicidade, entretanto, tinha a impresso de que a duquesa no ouvira nenhuma das explicaes. Era como se tivesse mergulhada no passado.

A mesa fora posta para o ch no salo, e o marqus disse, sorrindo, enquanto se sentavam:

Sei que, sendo francesa, a senhora no tem o hbito do ch, mas deve lembrar-se de que eu tive me inglesa.

A duquesa riu.

Um ingls no passa sem o ch da tarde!

Justamente! concordou o marqus. E eu adquiri esse hbito.

Felicidade entreabriu os lbios como se fosse dizer algo, mas calou-se.

Ia dizer que, sendo portuguesa, estava mais acostumada a tomar caf, quando se lembrou com um sobressalto de que estava passando por francesa.

Ento, sorriu e disse:

Est tudo to delicioso que vou me atrever a pedir mais um pedao de bolo.

Mas  claro! concordou o marqus. Esse  o meu preferido desde que era criana.

E ergueu-se para oferecer o bolo a Felicidade. Quando voltou a se sentar, aproximou-se mais dela.

Fale-me de voc disse ele. Ento, est gostando de meu pas?

Estou achando-o muito bonito!

Tal como voc!

Como o elogio a surpreendesse, Felicidade olhou depressa para a duquesa, querendo saber se tal fato lhe desagradava 
no.

A duquesa, entretanto, erguera-se da mesa e afastara-se

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um pouco para examinar um belo quadro de um pintor portugus chamado Gonalves.

Percebendo que dali ela no os ouvira, o marqus continuou falando:

Quando vi voc entrar nesta sala, pensei estar sonhando, pois voc no podia ser real. Achei que fosse uma ninfa ou uma deusa.

Felicidade riu e disse:

Gostaria que isso fosse verdade!

Por qu?

Porque, sendo deusa, no teria que me preocupar com problemas, ou coisas banais, como onde dormir ou o que comer.

Voc tem razo. Seria servida com nctar e ambrsia, e tenho certeza de que os campos do Olimpo devem ser bem mais macios do que minhas camas aqui no palcio!

Felicidade sorriu.

Voc tem sorte de ter um palcio to lindo e interessante. Mora aqui o ano todo?

A maior parte do tempo respondeu o marqus j que tenho cavalos em treinamento e uma vasta propriedade que precisa de cuidados. Mas tambm viajo muito.

Viu os olhos de Felicidade se iluminarem e disse:

 isso que voc gosta de fazer?

Gostaria, se tivesse oportunidade.

Ento voc deve ir  Grcia. E h vrios lugares do mundo que eu gostaria de lhe mostrar, por se compararem a voc embeleza.

Ele falava com voz aveludada e uma expresso no olhar que fez Felicidade corar timidamente e desviar os olhos.

Voc  muito jovem ainda, mas muitos homens j devem ter-lhe dito, e talvez com mais eloquncia, que seus olhos so lindos!

Felicidade olhou para a duquesa, que se afastara mais ainda da mesa, e disse afobada:

Acho que devo voltar para perto de minha tia...

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Fez meno de levantar-se, mas o marqus colocou a mo em seu brao, de leve.

Porm, bastou esse contato para faz-la sentir uma estranha vibrao que vinha dele. 

Quero conversar com voc, quero saber mais a seu respeito! Quando posso v-la de novo?

No sei... voc deve perguntar a minha tia.

Mas, voc gostaria de ver-me?

Ela virou o rosto para ele e seus olhos se encontraram com os dele, que eram cinzentos e pensativos. Felicidade desviou o olhar, sem dizer nada. Depois de alguns 
instantes o marqus disse, suspirando:

No tenho inteno de assust-la, por isso, vou falar com sua tia.

Ergueu-se, e, ao fazer isso, a duquesa encaminhou-se para eles.

Seus quadros so excelentes disse ela. Gostaria que meu finado marido pudesse t-los visto. Ele, como voc sabe, tinha uma coleo magnfica, mas sempre queria mais!

 sempre assim sorriu o marqus. A senhora e sua encantadora sobrinha no gostariam de jantar comigo esta noite? Assim poderamos nos conhecer melhor.

Esta noite? repetiu a duquesa.

. Tenho alguns amigos hospedados aqui que com toda certeza ficaro encantados em conhec-la disse o marqus, como se a estivesse subornando.

Nesse caso retrucou a duquesa, j que Felicidade e eu no temos outro compromisso, ficaremos contentes em aceitar seu convite.

Nem preciso lhe dizer como isso me deixa contente! retrucou o marqus.

Ele falava para a duquesa, mas ela notou que os olhos dele estavam pousados em Felicidade.

Quando j estavam na estrada, em direo ao Estoril, a duquesa perguntou:

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Diga-me o que achou do palcio e, naturalmente, do marqus.

Nenhum dos dois parecia real.

Eu tambm tive essa mesma impresso, na primeira vez.

Como podia esquecer o dia em que Joo a levara pela primeira vez ao palcio?

Ficara impressionada com sua magnificncia e com as preciosidades que continha, mas era-lhe difcil pensar em outra coisa a no ser em Joo.

 medida que ele a levava de quadro em quadro, explicando o estilo do pintor e onde fora adquirido, ela s percebia a proximidade de Joo e o leve contato da mo 
dele em seu brao, de vez em quando.

Apesar de terem se encontrado apenas duas vezes, ela j estava loucamente apaixonada por ele.

Aps ter mostrado todo o palcio a Ins, ele a convidou para hospedar-se l.

Ela entendeu bem o que isso significaria.

E mentiu para a me, dizendo que o marqus estava hospedando um grupo de amigos e queria que ela tomasse parte nas festas.

O marqus a convidou para ficar l? admirou-se a me. Nunca ouvi falar.de algum de nossas relaes que tivesse se hospedado no palcio!

Eu gostaria muito de ir, mame.

Sem dvida, mas acho que devemos consultar seu pai. O pai, entrentanto, muito animado com uma conversa que tivera com o marqus recentemente, no se preocupou com 
o fato de Ins se hospedar ou no no palcio.

O marqus havia lhe pedido que desenhasse novos estbulos para seus cavalos de corrida e pedira sua opinio sobre a reforma de uma casa que acabara de comprar no 
Alentejo.

Foi a melhor coisa que podia ter me acontecido. disse o pai, entusiasmado e pelo jeito de o marqus falar, parece que no pretende fazer economia para conseguir 
o que quer!

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A voz ia ficando cada vez mais empolgada  medida que prosseguia:

Vou poder afinal desenvolver minhas novas ideias, que no foram aceitas pelos outros clientes!

No ntimo Ins sabia que o marqus estava tentando subornar seu pai, mas recusava-se a admiti-lo.

S desejava uma coisa: estar ao lado dele.

Como tinha sido feliz naqueles primeiros dias no palcio, em que Joo e ela faziam amor a noite toda!

Durante o dia, conversavam, contemplando a vista magnfica, e falavam de si.

Joo a beijara ao lado das fontes, sob os respingos; e nas estufas, entre as orqudeas. Passeavam de mos dadas por todo o jardim.

Tinha sido to maravilhoso, to arrebatador!

Nem que o mundo inteiro se ajoelhasse a seus ps pedindo-lhe para abandon-lo, ela no daria ouvidos.

Nem as lgrimas da me a comoveram, quando comunicou a ela que estava se mudando para o palcio.

O marqus a queria ao lado dele.

Eu o amo, mame.

Voc no entende que ele nunca vai se casar com voc disse-lhe a me, soluando.

No tem importncia.

Isso sempre tem importncia para uma mulher! Mas ela no deu ouvidos  me.

S pensava em voltar correndo para Joo, que a esperava.

L fora estava uma bela carruagem, esperando para conduzi-la de volta a ele.

Cinco anos de perfeita e completa felicidade, mas tudo no passara de iluso!

Uma miragem que se dissipara completamente quando ele proferira aquelas quatro palavras:

"Eu vou me casar",
Quattro palavras que a destruram sem piedade. Embora continuasse respirando, j estava morta antes que ele sasse de sua casa.

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De repente a duquesa se deu conta de que Felicidade a olhava de modo estranho.

A senhora est bem, tia Ins? Com muito esforo, voltou ao presente.

Estou, sim, muito bem. Estava s pensando em que vestido voc deve usar hoje  noite.

Vai ser uma grande festa?

No, mas eu j devia ter imaginado que o marqus no estaria sozinho.

Por qu?

Porque homens como o marqus querem sempre se divertir, e a maioria das pessoas se aborrece de ficar sozinha com os prprios pensamentos.

A duquesa falou com amargura.

Lembrou-se de que, logo depois de o duque a levar para longe, evitava ficar s.

No comeo tinha medo das noites, porque ento a lembrana de Joo no a deixava dormir.

Ficava imaginando que, quando ele soubesse de sua morte, ficaria triste, com remorsos, e desejaria t-la de volta.

Ento, acalentava a ideia de voltar e mostrar a ele que estava viva. Ele a envolveria nos braos, a cobriria de beijos e lhe diria que no conseguia viver sem ela. 
No poderia casar-se com outra mulher.

Essa histria repetia-se em sua mente vezes sem fim, at que no conseguiu mais suportar a insnia e comeou a tomar remdio para dormir, todas as noites, caindo 
num estado de inconscincia em que no pensava em Joo.

Mas quando sua aparncia comeou a ser afetada, o duque a impediu de continuar com esse hbito pernicioso.

Eu j lhe disse que o passado deve ser esquecido disse ele com severidade, mas no posso for-la a esquecer. Voc  que tem de querer e se esforar para isso.

Aterrorizada, percebeu que, se lhe desobedecesse, ele deixaria de se interessar por ela, e se ele a abandonasse, ela ficaria completamente 
perdida.

Sentiu-se ento, subitamente envergonhada.

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No por ainda amar Joo, mas por estar sendo ingrata ao duque, que lhe dera tanto.

Ajoelhou-se aos ps dele e suplicou-lhe perdo.

No posso permitir que voc destrua sua beleza disse o duque. O sofrimento at lhe acrescentou um novo encanto, mas drogas e bebida so coisas bem diferentes!

Entendo o que voc quer dizer... desculpe-me... Aps esse episdio, Ins esforou-se para ser mais agradvel ao duque.

Tornou-se, ento, a mulher que cativara Paris, no s pela beleza, mas tambm por seu esprito.

Suas festas ficaram famosas, eram frequentadas por todos os amigos do marido, importantes estadistas, polticos, homens de letras e embaixadores de quase todos os 
pases da Europa.

O duque lhe proporcionara tanta coisa! Devia ser-lhe muito grata!

Contudo, ao ver o marqus parado no salo, do mesmo jeito que Joo ficava, entendeu que tudo o que conseguira na vida no tinha valor algum.

Tinha sido uma agonia indescritvel percorrer todo o palcio e ouvir o marqus dizer quase as mesmas coisas que Joo lhe dissera h muito tempo.

A voz do rapaz era quase idntica  do pai.

Mas, mesmo assim, pde perceber que o marqus ficava atrado pela beleza de Felicidade, tal como esperava, e, muito mais depressa do que supunha, manifestara o desejo 
de rev-la.

Era quase como se estivesse escrevendo uma pea de teatro e vendo os atores desempenhar os papis que ela lhes destinava.

Eles j no tinham mais pensamentos ou sentimentos prprios. Eram marionetes, e quem movimentava os cordes era ela.

- Que vestido devo usar, tia Ins?

O mais bonito de todos. As primeiras impresses so 

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sempre importantes, e toda mulher fica mais bonita  luz de velas.

Quando chegaram em casa, a duquesa mandou Felicidade ir deitar-se.

Em Portugal janta-se tarde, e o marqus no era exceo.

Havia bastante tempo para as duas descansarem antes do banho.

Felicidade no estava acostumada a ficar ociosa.

Durante os ltimos anos de pobreza, aproveitava todos os momentos para costurar.

Por isso, achava difcil ficar inativa, deitada na cama, mas sabia que devia obedecer  duquesa.

Portanto, era inevitvel que pensasse no palcio e no marqus.

Achou que a duquesa, apesar de falar e se movimentar com graa, parecia tensa e perturbada.

Teve a sensao de que ela estava sofrendo, e admirou-se de o marqus no o ter notado.

Pensando nele, achava-o quase irreal.

Nenhum outro homem lhe parecera to bonito. Ele era to imponente que, de certa forma, chegava a assust-la.

Tinha conhecido poucos homens, e certamente nenhum como o marqus.

Os amigos de seu pai eram na maioria poetas e j quarentes.

Costumava reunir-se para falar de seu trabalho, e ficavam to absorvidos nisso que mal saboreavam as deliciosas comidas que Felicidade e a me preparavam.

Havia alguns pintores que tambm frequentavam sua modesta casa.

Era interessante ouvi-los, mas Felicidade nunca pensara neles como homens.

Depois, mais tarde, quando se vira sozinha no mundo, instintivamente fugia dos homens.

Sabia como evit-lo, ao andar nas ruas. Cobria a cabea com um xale e caminhava depressa, aonde quer que fosse.

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Quando ia aos hotis tentar vender suas costuras aos hspedes, os porteiros s vezes a convidavam para sair.

Porm, os homens mais velhos costumavam ser bondosos com ela, talvez por parecer to jovem e desprotegida.

Felicidade era suficientemente inteligente para no se deixar levar.

Entretanto, o marqus foi uma revelao para ela.

Ouvira-o com toda a ateno, encantada com o que dizia, porm sem deixar de senti-lo como homem.

Percebera o interesse dele, lera-o em seus olhos, sentira-o em sua voz.

E sabia que tambm desejava muito v-lo de novo,  noite.

Ento, refletindo e considerando, chegou a uma concluso.

O interesse da duquesa por ela, toda aquela bondade, tinha de certa forma alguma relao com o marqus, principalmente o fato de ter que passar por sobrinha da duquesa.

S no entendia por qu.

Era frustrante no saber a resposta, e ao mesmo tempo instigava sua curiosidade.

Depois de vestida e pronta, Felicidade olhou-se no espelho.

Impossvel reconhecer-se como a criatura mal vestida, desnutrida e assustada que ela costumava ver refletida no pequeno espelho rachado da penso.

Verdade que ainda estava muito magra, porm, com um penteado da moda e um vestido que realava a brancura de sua pele, parecia uma princesa de contos de fadas.

A cintura era to fina que poderia ser circundada pelas duas mos de um homem.

Os olhos muito azuis faziam contraste com a pele e os cabelos.
J estava pronta quando a criada da duquesa levou-lhe um colar de prolas perfeitas.

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Madame disse para voc usar isso hoje  noite, mas para ter cuidado de no perd-lo!

So para mim, mesmo?! disse Felicidade, eufrica.

Era s o que estava faltando para a senhora retrucou a criada portuguesa que a estava servindo.

Tem razo, Teresa, mas  que nunca imaginei usar uma jia to linda!

Olhou-se de novo no espelho, desejando que a me pudesse v-la.

Depois desceu para encontrar-se com a duquesa, que estava esplendorosa.

Usava um maravilhoso vestido parisiense e algumas das magnficas jias que o duque lhe dera: uma tiara de safiras e diamantes que combinava com o colar e os brincos.

No dedo anular brilhava uma enorme safira.

A senhora est linda! Maravilhosa!

A duquesa sorriu pelo elogio to espontneo, depois disse:

E voc tambm, minha querida! L vamos ns  conquista! Ningum resistir!

Fizeram o mesmo percurso que tinham feito  tarde, s que agora havia estrelas no cu e os primeiros raios de luar brilhavam sobre o mar, o que tornava a paisagem 
ainda mais bela.

Enquanto a carruagem subia a colina, Felicidade teve medo de que o palcio pudesse ter desaparecido como um encanto que se desfaz ou um sonho que se dissipa.

Mas l estavam os minaretes e as cpulas.

O hall estava todo iluminado, e ao entrarem ouviram vozes no salo.

Felicidade sentiu um certo receio de que, entre tantas pessoas, no tivesse oportunidade de conversar com o marqus.

Quando foram anunciadas, ele se aproximou para receb-las.

Com seu traje de noite, estava ainda mais atraente do que antes. Felicidade percebeu que ele ficou contente ao v-la,

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E quando ele lhe segurou a mo, ela sentiu o corao bater descompassado.

No havia muitos convidados.

As mulheres eram todas muito elegantes, muito sofisticadas e, na opinio de Felicidade, muito bonitas.

Os homens eram todos aristocrticos, alguns muito mais velhos que o marqus, e os outros, maridos ou acompanhantes das senhoras presentes.

Contudo, quando Felicidade foi apresentada a uma das convidadas, sentiu imediatamente um certo antagonismo.

Era atraente, mas no bonita, e tinha aquele encanto extico tpico das francesas.

O nome dela era condessa de Valmont, e ao serem apresentadas, a duquesa disse:

Estive muitas vezes com seu encantador marido, madame.

Eu sei retrucou a condessa.

Era evidente que no estava nem um pouco interessada.

Olhou Felicidade da cabea aos ps, como se quisesse encontrar algum defeito nela.

Depois afastou-se e entrelaou o brao no do marqus, dizendo em tom perfeitamente audvel:

Voc sempre me deu a entender, lvaro, que considerava as pessoas daqui extremamente aborrecidas.

O marqus no respondeu.

Quando anunciaram que o jantar estava servido, ele disse  duquesa:

Espero, madame, me conceda a honra de ser seu acompanhante.

Ficarei encantada retrucou a duquesa. Ento, o marqus disse a outro convidado importante:

Quero que voc, Jos, cuide da condessa Felicity, j que ela no conhece ningum do grupo. Confio em voc para fazer com que ela se divirta.

 algo que farei com muita satisfao respondeu Jos.

Felicidade j sabia que ele era baro.

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Ao sentarem-se  mesa, percebeu que a condessa de Valmont estava contrariada por ter de se sentar longe do anfitrio e no ao lado dele, como esperava.

A sala de jantar era to bonita quanto os outros aposentos do palcio.

Havia esttuas em nichos ao longo da parede, em vez de quadros.

A mesa estava iluminada por grandes candelabros de ouro, e enfeitada com orqudeas de diferentes espcies. O primeiro prato foi servido em uma travessa tambm de 
ouro.

Felicidade achou que no podia haver ambiente mais romntico.

O marqus estava sentado em uma cadeira de espaldar alto, entalhado com seu braso.

Assim, nesse cenrio, parecia mais ainda sado de um conto de fadas.

Fale-me de voc disse o baro a Felicidade.

Preferia que voc me falasse sobre essas pessoas encantadoras, aqui presentes.

O baro riu.

Tenho certeza de que elas ficariam lisonjeadas de saber que as considera assim.

Olhou ento de Felicidade para o marqus e disse:

Voc deve saber que nosso anfitrio escolhe seus convidados como escolhe sua comida e,  claro, seus tesouros: com gosto e discriminao.

 o que todos deveriam fazer aprovou Felicidade.

Mas nem sempre  fcil disse o baro. Todos ns, por um motivo ou outro, precisamos suportar aborrecimentos que inevitavelmente estragam ocasies que deveriam ser 
s agradveis.

Mas, sem dvida, hoje no h aborrecimentos aqui, no  mesmo? disse Felicidade, ingenuamente.

Talvez no, mas ha ciumentos, invejosos e avarentos, o que  quase a mesma coisa.

No posso acreditar nisso!

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Acreditar em qu? interferiu o marqus, que estivera conversando com a duquesa.

Contudo, Felicidade tinha a impresso de que ele ao mesmo tempo escutara sua conversa com o baro. Virou-se e fitou-o com os olhos brilhantes.

O cavalheiro a minha esquerda disse ela est tentando estragar um quadro perfeito como os que me mostrou esta tarde.

Como ele ousa fazer uma coisa dessas? disse o marqus. No lhe d ouvidos!

 tudo to bonito como nunca vi antes disse Felicidade, olhando em redor, por isso quero acreditar que todos so felizes!

E  o que eu quero que voc seja disse o marqus com suavidade.

Ela ergueu o olhar para ele e seus olhos se encontraram.

Foi difcil para ela desviar o olhar, mas, quando afinal conseguiu, deparou com a condessa olhando-a fixo, do outro lado da mesa.

Entendeu que havia pelo menos uma pessoa presente que no estava feliz e, sem dvida, se encaixava na definio do baro como ciumenta.

Quando o jantar terminou, voltaram ao salo.

L, para deslumbramento de Felicidade, havia agora uma pequena orquestra tocando suavemente, atrs de um biombo de flores e folhagens.

Havia mesas de jogo e uma de baccarat, para a qual afluam os convidados mais velhos.

A senhora vai jogar, duquesa? perguntou algum.

Claro! retrucou ela. Como posso resistir a uma coisa dessas?

Encaminhou-se para o outro extremo da sala, e ao sentarse  mesa de baccarat, os outros lugares foram logo ocupados.

Felicidade estava pensando no que deveria fazer, quando sentiu a mo do marqus em seu brao

- Gostaria de lhe mostrar a vista  noite disse ele

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Sem esperar pela resposta, conduziu-a para o terrao.

No havia vento e estava uma noite quente.

De fato, o panorama era mais bonito ainda do que de dia.

Felicidade ficou encantada com as estrelas que brilhavam no cu, as luzes que se viam ao longe, nos navios que se movimentavam em direo ao mar aberto, e as luzes 
de Lisboa.

Era tudo to lindo que Felicidade ficou junto  balaustrada, contemplando, extasiada.

Tinha certeza de que jamais esqueceria esse quadro.

Ento, percebeu que o marqus a olhava e virou-se para ele, dizendo:

Obrigada por me mostrar isso.

O que a faz sentir?

Que neste momento eu sou Deus, contemplando o mundo que acabei de criar... e que  perfeito, sem sofrimento nem crueldade.

O marqus sorriu.

Extraordinrio! Eu j trouxe vrias pessoas aqui, mas nunca ningum disse algo assim!

Mas tenho certeza de que voc tambm sente isso.

Como pode saber?

Estou certa, no estou?

Est, e eu acho estranho, e quase desconcertante, que voc leia meus pensamentos ou conhea tanto a meu respeito.

Agora voc est zombando de mim. Eu no sou capaz de ler pensamentos, e quando disse aquilo, foi o que me ocorreu no momento.

E o que mais voc sabe sobre mim? Felicidade fez um gesto com as mos.

Nada... a no ser que eu acho que voc est procurando algo que teme no encontrar...

O marqus olhou-a, atnito, e perguntou:

- Por que voc diz isso?

Felicidade, temendo t-lo ofendido, disse logo:

Desculpe... no tive inteno de ser rude.

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Voc no foi rude, s me surpreendeu. Ento, num tom de voz diferente, perguntou:

Quem lhe falou a meu respeito? O que sua tia lhe contou?

Nada. Absolutamente nada, eu juro! Eu fiz mal em dizer o que pensava... desculpe.

Ah, eu assustei voc, e isso era o que menos queria. Na verdade, esperei ansioso pela sua chegada, e a tarde me pareceu interminvel depois que voc foi embora.

Felicidade no respondeu, simplesmente olhou para as estrelas.

Depois de instantes o marqus perguntou, num sussurro:

Voc pensou em mim?

Pensei... claro.

Por que "claro"?

Porque nunca conheci algum como voc.

E agora que conheceu, O que acha?

Ela inclinou a cabea ligeiramente para o lado, como se refletisse antes de responder:

Achei voc majestoso... muito inteligente e... bastante irreal.

Irreal?!

Tenho a impresso de que voc  apenas uma pintura, ou personagem de conto de fadas. Quando estvamos vindo para c eu at imaginei que o palcio teria desaparecido 
como uma miragem!

O marqus riu.

Posso entender o que est dizendo. Mas, por outro lado, quero que perceba, minha linda condessinha, que sou real e sou um homem!

Felicidade lembrou, ento, que era verdade, e lanou um olhar nervoso para a porta que dava para a sala de onde tinham vindo.

- Acho que  melhor voltarmos para dentro... Talvez minha tia esteja me procurando.

A duquesa est perfeitamente feliz jogando baccarat, e no vou deixar que voc fuja de mim assim.

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No estou fugindo retrucou ela, sabendo que no era verdade.

O luar estava cada vez mais claro.

Felicidade podia ver nitidamente o rosto dele ao luar.

Virou-se para ele, depois desviou o olhar.

Quando voc foi embora, hoje  tarde disse ele, fui eu que pensei estar sonhando, de to linda que achei voc. Mas agora que a estou vendo de novo, percebo que ainda 
 mais bonita do que eu lembrava.

Aquela voz aveludada fez Felicidade estremecer e espalhou por seu corpo uma estranha sensao, diferente de tudo o que j sentira.

O marqus estava apoiado na balaustrada, olhando para ela, e perguntou:

Voc j foi beijada, Felicity?

No... claro que no!

Ele riu de mansinho antes de dizer:

Foi o que pensei, embora parea impossvel, sendo voc to encantadora.

Eu no deixaria ningum me beijar... a no ser... Felicidade interrompeu-se, e o marqus acrescentou:

... a no ser que voc o amasse. Era o que voc ia dizer, no era?

Nunca pensei nisso...

No  verdade.

Ela sabia que ele estava certo. Claro que j pensara em amar, em ser beijada, mas tudo isso lhe parecia to distante e irreal!

Nos ltimos meses em que vivera sozinha, sua nica preocupao era ganhar dinheiro, ter o que comer e poder sobreviver.

No havia lugar em sua mente para amor ou sonhos, quando ia se deitar com fome.

Fora uma transformao extraordinria da vida que levava antes para a que estava levando ento.

Achava quase impossvel pensar com clareza, ou responder com coerncia  pergunta do marqus.

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Fez-se um silncio prolongado.

Ele contemplou o perfil delicado dela, iluminado pelo luar, percebendo o tumulto ntimo que a agitava.

Por algum tempo nenhum dos dois falou, at que ele disse com voz suave:

Quero que confie em mim, e ento vou afastar tudo o que a preocupa e lhe d medo.


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CAPTULO V

Felicidade acordou cedo e desceu logo.

Os criados se apressaram em lhe servir o caf, e ela sabia que a duquesa no desceria.

Na vspera lhe havia dito que estava cansada e queria dormir at tarde.

Tinha sonhado com o marqus a noite toda, sentindo que ele ainda estava a seu lado.

Depois de terem voltado do terrao, tinham escutado juntos a msica da orquestra.

Mesmo sem falarem um com o outro, Felicidade sentia que podia entend-lo e sabia que acontecia o mesmo com ele em relao a ela.

Na volta para casa, achou difcil enfrentar a curiosidade da duquesa.

O que voc e o marqus conversaram l no terrao?

Falamos sobre a vista respondeu Felicidade, esquivando-se.

E o que mais?

Ele disse que... eu era bonita. A duquesa mostrou-se satisfeita.

E depois, disse mais alguma coisa?

Felicidade pensou em quanto devia  duquesa e entendeu que precisava responder com sinceridade, mas no queria contar o que o marqus lhe pedira para confiar nele 
e dissera que iria varrer suas preocupaes.

 claro que ele no poderia fazer isso, mas seria maravilhoso saber que desejava ajud-la.

Contudo, no podia partilhar esse sentimento con ningum.

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Tentou desesperadamente lembrar-se de outros assuntos sobre os quais tivessem conversado.

Teve a impresso, enquanto voltavam para casa, que a duquesa de certo modo parecia decepcionada.

Espero que o vejamos amanh disse ela, afinal, quando chegaram.

Felicidade no respondeu.

Pensava no momento em que se despedira do marqus, quando ele lhe segurara a mo demoradamente. A fora daquele contato a fizera sentir-se protegida.

Sentiu que ele era firme como uma rocha, e estando a seu lado, nada a atingiria ou magoaria.

Quando se deitou, ficou lembrando cada palavra que ele dissera, o rosto bonito, e os olhos dele nos seus.

Reconheceu que havia uma forte vibrao entre eles, mas sua sensatez dizia-lhe que podia ser apenas imaginao sua.

Porm, no ntimo, sabia que no era imaginao.

Saiu, ento, ao terrao para apreciar a manh.

Havia ainda sobre o mar uma nvoa que comeava a se dissipar.

Ouvia o murmrio das ondas e lembrava-se da msica que a orquestra tocara  noite, tornando o palcio ainda mais encantado.

"Talvez eu o veja hoje", pensou.

Era o que mais queria, com uma fora indescritvel.

Sentindo-se inquieta, desceu os degraus do terrao e foi para o jardim.

Caminhou por entre os arbustos floridos que perfumavam o ar.

O conde, proprietrio da casa, devia ter gastado muito dinheiro planejando aquele arranjo de camlias, buganvlias e hibiscos.

Mais ao longe, num lugar protegido, havia uma profuso de lrios to belos em sua branca pureza, que Felicidade teve vontade de ajoelhar-se entre eles e rezar.

Era a flor da Virgem Maria.

Portugal inteiro era devoto da Me de Deus.

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No convento onde Felicidade fora educada, celebravam todos os dias santos relacionados a Nossa Senhora.

Ela se tornara to real para Felicidade, que costumava conversar com ela quase como se pudesse v-la.

Agora, contemplando os lrios, disse  Virgem como se sentia feliz por estar com a duquesa e como o marqus a impressionara.

Ele parecia um dos cavaleiros que haviam defendido Portugal contra os inimigos, ou um deus.

Ficou ali, em silncio, deixando o corao falar.

De certa forma no se surpreendeu quando, ao virar-se, viu-o caminhando em sua direo.

Ficou parada,  espera.

No fazia ideia de que, cercada de lrios e com rvores de mimosa ao fundo, era a imagem da prpria beleza.

O marqus parou  sua frente.

Por instantes ficaram apenas se olhando, depois ele disse:

Voc  perfeita! to perfeita que cada vez que a revejo imagino que irei me decepcionar, mas logo descubro que voc  ainda mais linda e encantadora do que nos meus 
sonhos!

Voc sonhou comigo...? murmurou.

Sonhei, e acho que voc sonhou comigo.

No havia necessidade de colocar em palavras o que ele podia ler em seus olhos.

Por que veio aqui?

Eu fugi respondeu ele de modo inesperado.

Fugiu?!

. Disse a meus hspedes, que esto indo embora esta manh, que infelizmente no podia ficar para v-los partir, pois havia sido chamado pelo rei Carlos para ir 
ao palcio.

E est indo para l, agora?

No, isso no  verdade. Meu compromisso era ver voc, o que  muito mais importante.

Ele falava com voz aveludada e sedutora. Felicidade ficou inibida e baixou o olhar.

Voc precisa ser retratada assim como est! E eu vou providenciar isso disse ele mais para si prprio.

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Ento, como se lembrasse o motivo de sua visita, continuou:

Ns vamos fazer algo que voc vai adorar, tenho quase certeza! Portanto, v buscar o chapu e traga um agasalho.

Aonde vamos?

Vou lev-la ao meu iate. Vamos fazer um passeio pela costa, para que voc possa contemplar meu pas de um ponto de vista diferente.

Fez uma pausa, depois acrescentou:

Mesmo sendo estrangeira acho que voc ir admirar a beleza dele como eu admiro.

Felicidade teve vontade de dizer que era" portuguesa, que amava Portugal e achava o pas lindo.

Mas logo se lembrou de que estava passando por francesa, e o marqus devia estar supondo que ela era muito patriota, como todos os franceses.

Com medo que ele pudesse ler seus pensamentos, disse depressa:

Eu adoraria passear no seu iate com voc... mas minha tia ainda no acordou...

Eu j esperava por isso, e meu convite  para voc ir sozinha.

Felicidade arregalou os olhos e fitou-o, admirada.

Sozinha? Mas talvez tia Ins no aprove...

Estou lhe pedindo apenas para ser um pouquinho ousada, e talvez desobediente.

Viu que Felicidade hesitava e acrescentou:

Quero conversar com voc sem que sejamos interrompidos e sem a sensao de estarmos sendo vigiados.

Felicidade lembrou-se dos olhares raivosos que recebera da condessa na vspera. Ainda bem que ela estava indo embora com os hspedes!

O marqus, vendo-a hesitante, insistiu:

Por favor, venha comigo! Prometo que, se a sua tia ficar zangada eu assumo toda a culpa!

Era impossvel resistir.

Felicidade disse, quase como uma criana:

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O que devo fazer...?

Vamos at a casa e eu escreverei um bilhete para a duquesa, dizendo que levei voc sozinha porque no queria incomod-la.

Ele fez uma pausa, como se estivesse pensando, e prosseguiu:

Terminarei dizendo que terei muita honra em receber vocs duas para jantar, agora que meus hspedes j foram.

Felicidade ficou visivelmente alvoroada com a ideia de ficar a ss com o marqus e de voltar ao palcio sem os outros convidados.

Depressa, vamos! disse ele.

Felicidade correu, rindo, entrou no terrao, passou pela sala e foi at seu quarto.

No havia ningum por ali.

A duquesa ainda dormia, e provavelmente s acordaria dali a umas duas horas pelo menos.

Ficou pensando se ela no se zangaria. Sua me no iria gostar que ela sasse com um rapaz desacompanhada.

Estava ainda apreensiva e indecisa, quando, de repente, teve a estranha sensao de que a duquesa ficaria satisfeita.

Tinha percebido, na vspera, que a duquesa queria que o marqus a admirasse. Mais do que isso, deliberadamente despertara a ateno dele.

Lembrou que ficara sem jeito quando a duquesa disse a ele:

Gostaria que minha sobrinha visse a beleza de seu palcio, porque ele no  bonito s por fora, mas por dentro tambm, voc entende?

Ela falara rindo, mas o marqus respondera, srio:

No s entendo, madame, como tenho certeza de que ela  exatamente assim.

Felicidade intimidou-se com o fato de eles falarem dela como se no estivesse presente, e desviou o olhar.

Por isso  uma grande alegria para mim prosseguiu a duquesa ter a companhia de minha sobrinha e saber que ela  minha herdeira e que todas as preciosidades que meu 
marido me deu estaro em boas mos.
Ficou constrangida com o fato de a duquesa faz-la to

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importante, mas sua intuio lhe dizia que isso fazia parte de seu disfarce.

Como estava entusiasmada com o passeio e sabia ser impossvel recusar, Felicidade desceu correndo.

Levava consigo, como ele sugerira, um xale colorido, para o caso de fazer frio no barco.

O marqus a esperava sentado diante da escrivaninha, numa das salas.

Assim que ela entrou, ele se ergueu, enquanto colocava uma folha dobrada dentro de um envelope.

Voc foi rpida disse ele, e isso  outra das coisas de que gosto em voc.

Voc tem certeza de que... no estamos fazendo nada de errado?

No meu entender,  o que h de mais certo e o que mais desejo fazer. E prometo, se houver complicaes, eu a defenderei e assumirei toda a culpa.

Ser que tambm devo escrever um bilhete para minha tia? perguntou Felicidade, hesitante.

No conseguia raciocinar direito com ele fitando-a, e tambm no desejava de forma alguma desagradar-lhe.

Um bilhetinho curto resolveu ele. Ela se sentou  escrivaninha e escreveu:

"Por favor, desculpe-me se fiz algo que a senhora no aprova, mas o marqus  bastante persuasivo e no sei como recusar o convite".

Escreveu em francs e assinou, depois colocou depressa a folha num envelope.

O marqus sorriu e, caminhando  frente dela, abriulhe a porta, gentilmente.

No hall encontraram Pedro, e o marqus entregou-lhe os bilhetes.

Por favor, entregue isso  duquesa assim que ela acordar disse com voz autoritria.

Pedro curvou-se submisso e respeitosamente. 

Felicidade subiu na calea que esperava diante da casa.

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Estou preocupada... disse baixinho. E se, quando tia Ins souber que sa sozinha, achar que fiz mal e ficar brava comigo?

No vai acontecer nada disso. E, por enquanto, vamos esquec-la e pensar s em ns.

Estou pensando no seu iate.  muito grande?

Voc vai ver quando chegarmos, mas eu lhe digo que me orgulho dele tanto quanto dos quadros que tenho no palcio.

Ento deve ser magnfico! Ele riu.

Mas, sem dvida, era uma bela embarcao.

Quando subiram a bordo, na baa de Estoril, Felicidade no pde deixar de pensar em como era diferente dos barcos em que saa para pescarias com seu pai.

O iate do marqus era muito grande e moderno, recmsado do estaleiro.

Ao mostrar-lhe as dependncias, parecia um menino entusiasmado com seu brinquedo novo.

Ali parecia menos autoritrio, menos imponente e assustador do que na vspera.

Felicidade riu e brincou com ele como se tivessem a mesma idade.

Tal como prometera, o marqus fez um percurso ao longo da costa.

Porm ela achou difcil prestar ateno aos rochedos, praias e palmeiras.

S via os olhos acinzentados do marqus e s ouvia a voz dele.

Ficava contente e sentia-se inteligente quando dizia algo espirituoso que o fazia rir.

Mais tarde, mal conseguia lembrar sobre o que haviam conversado. 

Ficaram sentados no convs em confortveis cadeiras almufadadas, protegidos do sol.,

Um camareiro serviu-lhes bebidas geladas em copos altos. 

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para Felicidade, as horas voaram, e mal pde acreditar quando avisaram que o almoo estava servido.

A comida era deliciosa, tal como o vinho branco, que intensificou seu entusiasmo e alegria.

Jamais passara um dia sozinha com um homem, e por isso essa experincia tambm lhe parecia irreal, como se fizesse parte do sonho que estava vivendo desde que a 
duquesa a recolhera.

Depois do almoo o calor aumentara e o marqus insistiu para que ela se recostasse um pouco num dos macios sofs da sala.

 bom que eu lhe explique disse ele, a essa hora do dia os portugueses costumam fazer a sesta, por isso j dei ordem ao meu comandante para ancorar numa calma enseada, 
a fim de que a tripulao toda descanse antes de voltarmos.

Felicidade deitou-se no sof com a cabea apoiada numa almofada de cetim, e o marqus, depois de colocarlhe uma coberta leve sobre as pernas, foi para o outro lado 
da sala e sentou-se de modo a poder contempl-la discretamente.

Ela tambm podia v-lo de onde estava, mas esperava que ele no percebesse que o olhava.

Na verdade, gostaria de poder continuar conversando. No fundo, temia que talvez no tivesse outra oportunidade como aquela.

Queria guardar como um tesouro cada palavra que ele dissera.

Tinha sido uma manh maravilhosa e empolgante.

Mas, por causa do calor, do vinho e da refeio, acabou adormecendo.

Sonhou que o marqus estava a seu lado, que os braos dele a envolviam e sentiu os lbios dele sobre os seus.

Foi um sonho to excitante que espalhou uma onda de calor em seu corpo e a fez abrir os olhos.

Ento percebeu que estava acordada, o marqus estava a seu lado e a beijava de verdade.

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Por um instante ainda achou que no era real.

Mas, quando o beijo se tornou mais intenso e possessivo, ela sentiu o corpo todo estremecer com sensaes que jamais experimentara. Sentia-se to extasiada, to 
arrebatada, que tinha a impresso de estar no paraso.

De repente o marqus afastou um pouco o rosto, dizendo, numa voz clida que ela no ouvira antes:

Minha doura, minha querida, como eu poderia imaginar que existisse algum como voc no mundo e que eu fosse encontr-la?

Felicidade olhou-o nos olhos, ainda atordoada, e murmurou:

Voc... voc me beijou!

No pude resistir. Eu estava querendo beij-la desde a primeira vez que a vi, e agora sei que o sabor de seus lbios  to perfeito quanto tudo em voc.

Sem esperar que ela respondesse beijou-a novamente.

Beijou-a at que ela se sentisse parte dele.

Era como se ela estivesse se afogando num mar de indescritveis emoes e lhe fosse impossvel pensar, apenas sentir.

Mais uma vez ele afastou o rosto, e ento ela murmurou:

Eu amo voc!

No pretendia dizer isso, mas as palavras saram-lhe dos lbios porque eram a nica maneira de expressar o que estava sentindo.

E eu amo voc! Diga-me, quando descobriu o que sentia por mim?

Acho que... que foi desde a primeira vez que o vi Foi ontem, no foi? Tenho a sensao de que foi h muitos anos!

Isso  porque estvamos nos procurando desde o comeo dos tempos, ou melhor, eu estava procurando por voc. embora achasse impossvel voc existir,

Foi por isso que eu tive a sensao de que voc estava procurando por algo que no encontrara...

Mas agora eu a encontrei, e estou morrendo de 

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medo que voc voe de volta para o cu de onde veio e que eu possa perd-la. Felicidade riu baixinho, antes de dizer:

Eu acho que nada disso  verdade!

 verdade, sim! Tem que ser verdade!

Nesse momento os motores comearam a funcionar de novo, e como isso os trouxesse de volta  realidade, o marqus beijou Felicidade de leve e ergueu-se para sair 
da sala.

Ela sentiu uma enorme agonia por separar-se dele. Sua vontade era ficar abraada a ele, impedindo-o de afastar-se.

Ento, a porta da sala abriu-se e surgiu um marinheiro.

Com sua licena, senhor marqus. O comandante est retornando ao Estoril, a menos que haja outra ordem.

No, diga ao comandante que prossiga. O marinheiro saiu da sala.

Felicidade afastou a manta de seda e ergueu-se tambm.

O marqus a contemplava, e ento, quando o iate balanou inesperadamente, ela se desequilibrou e ele a amparou, envolvendo-a nos braos.

Tenha cuidado, meu amor.

Segurava-a bem junto de si e a teria beijado novamente, se ela no tivesse escondido o rosto em seu peito, com timidez.

Felicidade ouviu o corao dele batendo e sentiu que o seu batia no mesmo ritmo acelerado.

Era difcil pensar em qualquer outra coisa que no fosse a proximidade dele.

Eu encontrei voc! repetiu ele.  verdade, mas as pessoas vo achar difcil acreditar que isso tenha acontecido to rapidamente!

Ela ergueu o rosto com um olhar indagador, e ele explicou:

Nunca acreditei em amor  primeira vista. Sempre achei que era inveno de escritores e poetas! Mas eu amei voc assim que entrou no palcio.

Felicidade fez meno de dizer algo, mas ele a beijou de novo prolongadamente.

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De modo vago passou-lhe pela mente que no era quem ele estava procurando, mas sim uma personagem inventada pela duquesa.

Na verdade estava representando uma mentira, uma farsa.

Mas estava tudo to confuso!

 medida que os beijos dele incendiavam seu corpo, ficava cada vez mais impossvel raciocinar e pensar que ele deveria saber a verdade.

O iate ganhava velocidade. Eles se sentaram num dos sofs, lado a lado, e o marqus disse:

O que eu mais quero  ficar olhando para voc. No h necessidade de palavras e muito menos das perguntas que, desconfio, esto querendo fugir de seus lbios.

Beijou-a na testa e prosseguiu:

Vamos apenas desfrutar a felicidade de estarmos juntos. Depois poderemos resolver todos os problemas que estou vendo refletidos em seus olhos to expressivos!

Voc no pode ler meus pensamentos!... disse Felicidade, e desviou o olhar, temendo o que ele pudesse descobrir.

Queria contar a ele toda a verdade, dizer quem era na realidade, mas de repente ocorreu-lhe que ele poderia ficar horrorizado.

O marqus achava-a to perfeita, como poderia engan-lo?

A bruma comeou a se dissipar em sua mente, e Felicidade foi ficando apavorada. Retirou a mo da dele e ajeitou o cabelo, dizendo:

Talvez minha tia ache muito errado voc ter me beijado... No deveramos ter sado sozinhos...

O marqus riu.

Voc est querendo voltar o tempo para trs, mas ns desafiamos as convenes e fomos longe demais para voc se preocupar, agora, se foi certo ou errado eu beij-la.
Fez uma pausa e prosseguiu:

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Porm, foi certo, e absolutamente certo, porque eu amo voc e porque sei, mesmo que no tivesse me dito, que voc tambm me ama.

Como pode estar to certo disso...?

Em resposta, ele segurou-lhe a mo novamente e encostou os lbios na palma num beijo longo, lento e apaixonado.

A carcia desconhecida despertou em Felicidade uma emoo indescritvel, que se refletiu em seus olhos, e sua respirao tornou-se arfante.

Ele segurou a mo dela entre as suas e perguntou:

Agora diga-me o que est sentindo e se alguma outra coisa tem importncia diante disso.

Era impossvel falar.

Ficou apenas olhando-o at que ele a envolveu nos braos e puxou-a para si.

Voc  minha! Minha, desde que nasceu. O destino nos aproximou at que afinal ficamos juntos!

Beijou-a de novo com ardor e paixo, e quando ela ficou em abandono total em seus braos, ele disse triunfante:

Diga-me agora se me ama ou no!

Eu amo voc...

Beijou-a dessa vez com muita ternura e conduziu-a ao convs.

Felicidade avistou o Palcio Azul recortado contra o cu lmpido.

Parecia ainda mais romntico do que na vspera.

No havia necessidade de palavras.

Ficou ali, envolvida pelo brao do marqus, contemplando o lar dele.

No pde deixar de pensar que tanto um como outro ativavam-lhe a imaginao e a fantasia.

S quando, afinal, o iate entrou na baa, o marqus perguntou:

- Fiz voc feliz?

Muito! to feliz que no consigo descrever em palavras.

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Ns estamos nos amando disse ele, e as palavras so sempre inadequadas para expressar o que vem do corao.

Ela ficou impressionada por ele entender to bem exatamente o que estava sentindo.

Com um sorriso nos lbios, foi at a sala buscar o chapu e o xale.

Quando desembarcaram, a carruagem do marqus estava  espera.

No caminho de volta para casa, ficaram de mos dadas.

Pedro recebeu-os na porta e disse que a duquesa estava na sala.

Felicidade apavorou-se, temendo enfrent-la.

Como poderia explicar-lhe o fato de ter sado sozinha com o marqus? De terem passado o dia todo sozinhos? Isso era repreensvel do ponto de vista social.

Mas falar sobre isso, justificar-se, poderia destruir a magia que ainda a envolvia.

Ficou parada no hall, indecisa, e como se o marqus entendesse o que estava sentindo, disse com calma:

Suba, meu amor, e deixe isso comigo.

Pedro abriu a porta da sala para o marqus, e enquanto ele entrava, Felicidade subiu a escada correndo.

Foi direto para seu quarto.

Arrancou o chapu e atirou-se de bruos na cama, escondendo o rosto no travesseiro.

Tudo o que lhe acontecera parecia-lhe inacreditvel.

No era mais a mesma pessoa que sara daquele quarto pela manh.

At ento, amava-o de uma maneira espiritual, etrea como a bruma sobre o mar, pura como os lrios do jardim.

Era um amor intenso, real e divino.

Agora, porm, os beijos do marqus haviam despertado nela a mulher. 

J no o amava s como um cavaleiro, ou um deus sem corpo fsico, mas como um homem.

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Seu corpo todo vibrava com a proximidade do dele, embora em sua inocncia no entendesse o desejo nem soubesse como saci-lo.

Queria pertencer a ele de alguma maneira.

O que estava sentindo era to avassalador que no conseguia pensar, s sabia que todo o seu ser chamava por ele.

No saberia dizer quanto tempo ficou ali, at que ouviu baterem na porta, depois Maria entrou.

Felicidade sentou-se depressa na cama.

Pode descansar disse a criada, no h pressa.

No h pressa...? repetiu ela, surpresa.

No. A senhora s precisa estar pronta s oito e meia para ir ao palcio. At l deve repousar e dormir um pouco.

Felicidade respirou fundo.

Ainda bem que a duquesa no mandara cham-la. Isso significava que no estava brava, seno no teria aceito o convite do marqus para jantar.

Com um sorriso, pensou que ele sempre conseguia o que queria.

De alguma forma ele convencera a duquesa de que no haviam feito nada de errado.

At mesmo a duquesa, como todas as outras mulheres, achava-o irresistvel!

Felicidade deixou que Maria a ajudasse a despir-se e a colocar uma linda camisola de tecido fino, com ricas rendas, bem mais cara do que as que costumava fazer.

Mas no queria pensar em seu antigo trabalho, nem nos dias terrveis e desesperadores em que andava de hotel em hotel tentando vender suas costuras.

Por isso, enfiou-se na cama e ficou pensando no marqus.

Ainda sentia o calor daqueles braos fortes envolvendo-a e o sabor daqueles lbios exigentes pressionando os seus.

Com ele sentia-se segura e protegida

No queria pensar nos problemas e no futuuro.

No teria que explicar-se, desculpar-se.

Mas o que faria se o marqus ficasse bravo?

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Alm do mais, teria de continuar com a farsa, pois dera sua palavra  duquesa que tanto estava fazendo por ela!

Ao menos enquanto durasse seu compromisso com a duquesa.

"Tenho certeza de que ela entender quando souber que ns nos amamos", pensou Felicidade, confiante.

Temendo resposta contrria, procurou pensar apenas no marqus, o que no foi difcil.

Nos lbios dele, nos beijos dele, nele todo!

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CAPTULO VI

A caminho do Palcio Azul, Felicidade sentia-se tensa e ansiosa.

S quando j estavam quase chegando, percebeu que a duquesa no pronunciara uma s palavra, mas havia um sorriso em seus lbios.

Contudo, Felicidade tinha a impresso de que ela no estava muito feliz. Parecia estranho, mas era uma sensao que no conseguia descrever.

Ser que a duquesa, afinal, ficara aborrecida por ela ter sado de iate sozinha com o marqus? Tinha esperado, apreensiva, encontr-la. Pusera o vestido que lhe 
tinha sido determinado e que a fazia parecer muito jovem e inocente.

Instintivamente, pensou nos lrios entre os quais estava quando o marqus chegara de manh.

Pela primeira vez pensou se talvez ele no teria ficado chocado por ter permitido que a beijasse. Mas "permitido" no era bem a palavra. Ela estava adormecida quando 
os lbios dele tocaram os seus. No poderia t-lo evitado ou afastado.

Resistir teria sido como querer enfrentar uma daquelas poderosas ondas do Atlntico que se quebram sobre os rochedos. E, ento, o amor pareceu fluir dela, e foi 
impossvel reprimi-lo.

Mal podia suportar a expectativa de v-lo novamente.

S no fazia ideia de que a duquesa percebera o brilho em seus olhos e voltara s recordaes do passado.

Estava lembrando como se sentia quando ia ao encontro de Joo no palcio.

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Naquela poca achava que o amor deles era eterno como o mar.

Felicidade no sabia que o vestido que estava usando era quase uma rplica de um que a duquesa tivera.

Comprara-o pouco depois de conhecer Joo, e sem a permisso da me. Custara muito mais caro do que os que costumava comprar, por isso no a consultara.

A cor e a suavidade do tecido realavam seus cabelos escuros, a pele clara e os olhos brilhantes de felicidade.

Jamais esqueceria aquela noite, pois fora ento que Joo lhe dissera:

No posso mais suportar a sua ausncia, essa histria de ir embora e me deixar! Voc vai dizer a sua me que a partir de amanh vai ficar definitivamente no palcio.

Ela o olhou com certa apreenso, e ele disse:

Diga que h um grupo de hspedes, que a rainha vai estar aqui em pessoa, qualquer coisa, mas, pelo amor de Deus, venha para c! Seno vou acabar enlouquecendo sem 
voc!

Sem esperar que respondesse, envolveu-a nos braos e beijou-a at que ela concordou em fazer tudo como ele queria.

Era impossvel pensar em outra coisa que no fosse ele e o amor que sentiam um pelo outro.

Sabia que era exatamente isso o que Felicidade estava sentindo naquele momento.

Ficou pensando, com certo cinismo, se a moa teria foras para resistir caso o marqus quisesse lev-la com ele.

J percebera que Felicidade era muito religiosa.

A educao com as freiras, sua crena em Deus e na Virgem Maria eram traos marcantes em seu carter e sua personalidade.

Nesse sentido a duquesa sabia que a moa era diferente dela quando era jovem e conhecera Joo.

Seus pais eram catlicos, mas no dos mais fervorosos.


E ela desde cedo tomara conscincia da prpria beleza. Sabia, agora, que Felicidade estava deixando de ser criana 

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para assumir sua condio de mulher. Se antes s se preocupava com sua alma, agora comeara a sentir as emoes do corao.

A duquesa resolveu no pensar mais em Felicidade. Em vez disso, pensou em seu plano e em como tudo estava acontecendo exatamente como queria.

Felicidade e o marqus estavam apaixonados.

Na sua convivncia com o duque, tinha aprendido a conhecer a diferena entre um homem sincero e um simulado.

Sabia tambm reconhecer quando o que chamavam de "amor" no era mais do que um desejo passageiro, atrao por um rostinho bonito e um corpo bem feito.

Tudo estava acontecendo muito depressa.

Porm, estava disposta a gastar quanto fosse preciso para que o marqus ficasse perdidamente apaixonado por Felicidade.

Na verdade, era s uma questo de esperar que ele se declarasse.

Talvez fosse essa noite: se fosse, estava preparada.

Os cavalos cruzaram os portes para subir a etapa final da colina at o palcio.

Os ltimos raios de sol douravam as cpulas e os minaretes.

Era to lindo que a duquesa ouviu Felicidade suspirar. Tudo ali parecia encantado como num reino de fadas. Como de costume, os lacaios de libr desenrolaram o tapete 
vermelho.

O mordomo fez uma reverncia, e a duquesa entrou no palcio, seguida de Felicidade.

Dois lacaios apressaram-se em abrir as portas do salo, mas antes que o fizessem, o prprio marqus abriu-as, como se estivesse impaciente, e cumprimentou a duquesa.

A senhora sabe como estou contente em v-la!

Ela notou que havia sinceridade naquela voz.

Beijou-lhe a mo e logo, como se no pudesse mais conter-se, olhou para Felicidade.

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Por instantes os dois ficaram apenas se olhando, e ela at se esqueceu de fazer a reverncia.

Precisou de muito esforo pra se conter e no se atirar nos braos dele.

Agora sim, podemos nos divertir disse o marqus. Em grupo  sempre difcil conversar com quem a gente quer.

Contudo, eu me diverti a noite passada disse a duquesa, sorrindo.

Muito  vontade, com a experincia de uma sofisticada anfitri, ps-se a falar sobre os convidados do marqus.

Contou passagens engraadas das pessoas que conhecera no passado.

O marqus ria e mostrava-se atento, mas ao mesmo tempo no parava de olhar para Felicidade.

Quando ela recusou uma taa de champanhe que lhe oferecera o mordomo, ele se levantou.

Pegou uma taa da bandeja e passou-lhe.

Esta noite estamos comemorando o que para mim foi um dia perfeito! disse, entusiasmado.

Felicidade sentiu o olhar dele em seus lbios e entendeu que estava pensando nos beijos que haviam trocado.

Enrubesceu, mas obedientemente tomou um gole da bebida.

Durante o jantar, percebeu que o marqus no s estava feliz, mas tambm estava realmente se divertindo.

Tratava as duas convidadas com muito bom humor, querendo que se sentissem felizes tambm.

Contou-lhes histrias interessantes sobre o palcio, suas propriedades e as pessoas que trabalhavam para ele.

No cometeu a indelicadeza, como muitos poderiam ter feito, de comentar com a duquesa a respeito de pessoas que ambos conheciam em Paris, pois isso excluiria Felicidade 
da conversa.

Falava s de coisas que ela tambm pudesse e itender e achar interessantes.


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Quando falou dos cavaleiros, entendeu pelo brilho no olhar dela que o estava imaginando numa reluzente armadura.

A comida estava ainda mais deliciosa do que na noite anterior.

Para agradar Felicidade, o marqus mandara os msicos tocar de novo msicas suaves, de fundo.

A mesa estava arrumada com travessas de ouro, que o marqus disssera pertencerem  famlia h muitas geraes, e que tinham sido feitas pelos mais afamados artesos.

Os arranjos de flores eram de orqudeas brancas, e Felicidade tinha certeza de que o marqus as escolhera pessoalmente.

Notou tambm que havia lrios em grandes vasos dos lados da lareira.

Ela sorriu discretamente para ele, e o marqus sentiu-se agradecido.

Os criados retiraram as travessas e saram da sala, mas eles trs ainda continuaram um longo tempo  mesa.

Os acordes suaves e romnticos de Strauss pairavam no ambiente.

Por fim, passaram ao salo.

A luz eltrica j havia sido instalada em vrias propriedades de Lisboa, mas o marqus insistia em que isso estragaria o palcio.

A luz de velas nos candelabros de cristal era suave e sem dvida embelezava o ambiente.

As flores perfumavam a sala, e as janelas abriam-se para a noite estrelada.

Felicidade sentia que no podia haver ambiente mais perfeito para se viver um amor.

Durante o jantar todo, ela e o marqus sentiam a forte vibrao entre eles, e s vezes ele parava no meio de uma frase, esquecendo o que ia dizer.

Os olhos dele refletiam o desejo de abra-la e beij-la.
Felicidade sentia, ento, o pulsar de uma intensa emoo, pois desejava o mesmo.

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Ficou imaginando quando teriam outra oportunidade de ficar a ss.

Num impulso, foi at a janela.

No tinha noo de que a duquesa soubesse exatamente o que estava sentindo.

Estava justamente lembrando certa noite, depois de ter jantado com Joo.

Ao entrarem no salo, Joo dissera:

Esqueci de lhe dizer, meu amor, que amanh precisarei viajar.

Ela imediatamente protestou:

Ah, no! Por qu? E para onde vai?

Tenho um compromisso em Madri do qual no posso me esquivar. O rei de Espanha chamou-me para discutir uma questo de poltica. J adiei tantas vezes que no posso 
mais fazer isso.

E eu vou ficar aqui sozinha...?!

S por dois ou trs dias.

Dias que parecero sculos!

Voc vai sentir minha falta?

Sabe que ficarei triste e infeliz sem voc.

Do mesmo modo que eu sem voc.

Ins foi at o terrao, ento, como se isso pudesse aliviar a dor que Joo estava lhe infligindo.

Era o preo que pagava por ter se colocado totalmente nas mos dele.

Quando ele viajava, ela no procurava a famlia nem os antigos amigos.

No queria que lhe fizessem perguntas ou bisbilhotassem sua vida ntima.

Por isso, quando ele no estava, ela ficava completamente s.

Sozinha na vastido daquele palcio que, sem ele, parecia muito vazio.

Tudo ficava sem sentido, e s lhe restava esperar e esperar, at que ele voltasse.

Joo fora atrs dela no terrao.

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Apoiaram-se na balaustrada, contemplando as luzes ao p da colina.

Como se lesse seus pensamentos, ele disse:

Eu tirei voc de l, afastei-a de tudo. Por acaso se arrepende de estar vivendo aqui nas nuvens? Gostaria de voltar?

Como pode me fazer uma pergunta to absurda? Estou feliz, profundamente feliz, mas com um certo medo.

Medo de qu?

De perder voc cada vez que viaja. Ele riu com ternura.

Isso  impossvel! Voltarei o mais rpido possvel, e sero s dois ou trs dias. Temos a vida toda pela frente!

A duquesa no pde deixar de pensar, com amargura, que a "vida toda" resumira-se em cinco anos.

Cinco anos, ento achou que ela no servia e jogou-a fora, por no ter sangue nobre como o do todo-poderoso marqus Joo de Oliveira Vasconcelos.

Emergiu de suas recordaes e percebeu que o marqus se aproximara de Felicidade, diante da janela.

Ela o olhou, esperando que a conduzisse ao terrao, onde ficariam a ss, mas ele a contemplou longamente.

Felicidade sentiu um ligeiro tremor ao v-lo olhar seus lbios.

Ento ele tomou-lhe a mo e, com um sorriso, disse:

O que estamos esperando?

Ela no entendeu, mas deixou-se levar quando ele a conduziu para o sof onde estava a duquesa. Pararam diante dela.

Madame disse o marqus, temos algo a lhe dizer, algo que no vai surpreend-la, tenho certeza.

A duquesa fitou-o com olhar interrogativo, e o marqus prosseguiu:

Ns nos amamos. Pode parecer muito cedo para a senhora, mas ns nos apaixonamos assim que nos vimos.

Olhou para Felicidade e continuou:

Era uma coisa predeterminada desde o incio dos

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tempos que devamos nos conhecer. Encontrei, afinal, o que venho procurando h anos, em vo.

Enquanto falava, Felicidade aproximou-se um pouco mais dele, e ele enlaou-a pela cintura.

Instintivamente ela encostou o rosto no ombro dele.

Vocs no me surpreendem disse a duquesa, aps um prolongado silncio. Mas, agora, o que pretendem fazer?

A resposta  simples retrucou o marqus. Queremos nos casar assim que a senhora nos der permisso. Em uma semana ou dez dias! No posso esperar mais do que isso!

Felicidade surpreendeu-se, depois lanou um olhar splice para a duquesa.

Mil pensamentos passaram pela sua mente.

Imaginou se a duquesa iria contar a verdade a ele, ou se o deixaria na ignorncia.

Ser que ouvi bem? perguntou a duquesa, com calma.

A voz com que falou, ento, foi diferente da que costumava usar.

Voc quer se casar com minha sobrinha, minha herdeira?

Quero que ela seja minha esposa.

Tem certeza disso?

Como j lhe disse, pode parecer precipitado, pois acabamos de nos conhecer. Mas o tempo no conta em questes de amor. Por isso, por favor, senhora duquesa, seja 
generosa e permita que nos casemos o quanto antes!

Fez uma pausa e acrescentou:

E que local mais apropriado haveria do que aqui no palcio, em minha capela?

A duquesa estendeu a mo.

Venha c, Felicidade. Obediente, a moa aproximou-se.

A duquesa a fez sentar-se a seu lado, no sof, enquanto o marqus permaneceu de p.

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Voc me pediu para consentir o casamento do marqus lvaro de Oliveira Vasconcelos com uma moa que conheceu como "Felicity" e que diz amar.

Eu a amo de verdade disse o marqus, e ela me ama tambm!

Que ela o ame eu posso acreditar disse a duquesa, mas duvido que voc a ame o bastante para...

O marqus fez um gesto, dizendo com veemncia:

Estou com trinta e dois anos e, como sabe, j me casei uma vez, e foi um desastre. Decidi por isso nunca mais aceitar um casamento arranjado, e s me casar quando 
encontrasse algum que eu amasse e que retribusse esse amor.

Ele sorriu um sorriso cativante, e prosseguiu:

E foi o que aconteceu, por isso considero-me o homem mais feliz do mundo!

Palavras! Palavras! disse a duquesa. Palavras que j ouvi antes nesta mesma sala!

O marqus olhou-a, perplexo. E a duquesa prosseguiu:

Quando voc conheceu Felicidade, eu sabia que sentiria por ela o mesmo que seu pai, h muitos anos, sentiu por mim.

O marqus ficou visivelmente admirado, mas no disse nada.

Eu tinha a mesma idade de Felicidade disse a duquesa. Ns nos conhecemos na praia, depois ele tiroume de minha famlia e trouxe-me para morar aqui no palcio como 
amante dele. E repetiu, com voz rgida: Amante dele!

O marqus, agora, olhava-a, atnito. Sem desviar o olhar, sentou-se numa cadeira diante dela e ficou ouvindo com ateno.

Eu no sabia disso!

E por que haveria de saber? Depois, quando cinco anos mais tarde seu pai me disse que ia se casar com outra, que servia para ele por ter sangue nobre, eu morri!

O marqus arregalou os olhos, e ela prosseguiu:

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Estou dizendo a verdade, embora seja difcil explicar. Seu pai foi para a Inglaterra, e quando voltou informou-me que tinha ficado noivo da mulher que veio a ser 
sua me, porque ela era filha de um duque!

Felicidade murmurou algo inaudvel. Era suficientemente esperta para perceber aonde a duquesa queria chegar com sua histria.

Teve vontade de gritar, horrorizada. Mas estava paralisada e muda.

Ele me deu dinheiro continuou a duquesa e disse-me que fosse para Paris, onde sem dvida eu encontraria outro homem para ser meu protetor, como ele fora!

Sua voz estava dilacerada pelo sofrimento.

Eu o amava com toda a sinceridade! Entreguei-lhe meu corao! Nunca pensei, nem por um momento, que nosso amor pudesse ser algo vil e degradante, que na verdade 
eu no passasse para ele de uma mulher qualquer que ele comprara e podia dispensar quando no servisse mais!

Essas ltimas palavras foram quase cuspidas; depois ela suavizou um pouco o tom.

Eu disse que morri e voc no acreditou, mas foi exatamente isso o que aconteceu. Fui at a beira do penhasco para jogar-me no mar, mas fui salva pelo duque de Monreuil, 
que mais tarde se casou comigo.

A voz tornou a ficar rspida.

Casou-se comigo mas jamais teve meu corao, pois esse, seu pai destruiu!

Felicidade notou o sofrimento dela enquanto contava aquilo tudo.

Estendeu a mo e colocou-a no brao dela, querendo confort-la, mas a duquesa se retraiu.

Durante todos esses anos prosseguiu eu s amei seu pai, e embora levasse uma vida nova em Paris, a lembrana dele sempre me atormentou. Eu jamais o esqueci, nem 
por um minuto do dia ou da noite. Ele sempre esteve comigo;!

Por um momento lgrimas ameaaram a inundar-lhe os olhos, mas, controlando-se, ela desafiou o marqus. 

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Foi por isso que planejei vingar-me em voc, o filho de Joo!

O marqus fez meno de falar, mas ela prosseguiu:

Voltei para Portugal para destruir os fantasmas, e quando vi Felicidade, entendi que o destino estava me dando uma arma com a qual poderia ferir voc tal como fui 
ferida.

Mas no entendo... balbuciou o marqus.

J vai entender interrompeu a duquesa quando eu lhe disser que Felicidade, e esse  o verdadeiro nome dela, no passa de uma vendedora ambulante. Uma moa portuguesa, 
das ruas, que encontrei passando fome e tentando vender suas costuras no Grande Hotel!

A duquesa riu, e o som ecoou pela sala toda.

Uma vendedora portuguesa! Tem certeza, meu nobre marqus, que vai querer misturar seu sangue azul, do qual tanto se orgulha, ao de uma mulher da sarjeta?

Felicidade deu um grito de protesto, mas a duquesa continuou falando:

Dizem que voc nunca encontrou algum digna de ser sua esposa, mas duvido que seu pai, que me considerava inferior a ele, aprovasse sua escolha, ou que seus filhos, 
herdeiros do ttulo, se orgulhassem da me que teriam!

O marqus parecia ter se petrificado. A duquesa ergueu-se e puxou Felicidade.

Lembre-se do que lhe disse continuou, e se seu orgulho est ferido por isso, pense no que sofri e ainda sofro!

Dizendo isso, encaminhou-se para a porta, arrastando Felicidade.

Caminhava com determinao, apertando tanto a mo de Felicidade que ela no teve outro jeito seno seguir a duquesa.

Percebeu que o marqus continuava parado onde estava, mas mesmo que tivesse olhado, no o teria visto, pois seus olhos estavam cheios de lgrimas.

A carruagem esperava l fora, e assim que as duas subiram, o veculo partiu.

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Agora as lgrimas rolavam livres pelo rosto de Felicidade.

As duas permaneceram caladas, at que, ao chegarem  estrada da costa, Felicidade disse, com voz entrecortada:

Como pde... contar a ele... assim...?

Era a verdade, e agora pode esquec-lo, como eu pretendo esquecer o pai dele!

Eu nunca vou esquec-lo!

Bobagem! retrucou a duquesa com rispidez. Meu amor durou cinco anos, o seu no durou nem cinco dias!

Felicidade no respondeu, apenas cobriu o rosto com as mos, tentando controlar o choro.

Do modo como a duquesa falara, tudo tinha parecido to srdido e desagradvel!

O marqus iria pensar que ela era cmplice e conspirara com a duquesa para engan-lo. Jamais a perdoaria!

"Como eu podia saber... como poderia imaginar", pensava, "que era por isso que eu devia fingir ser a sobrinha e herdeira da duquesa?"

No pde conter um soluo mais forte, que a duquesa ouviu.

Controle-se, menina disse ela, rspida. Voc nunca mais vai v-lo, portanto  melhor esquecer o quanto antes!

Ele no vai querer ver-me murmurou, amargurada.

Claro que no! Ele vai se sentir humilhado de no ter reconhecido voc pelo que  realmente! E vai tratar de esquecer o episdio o mais rpido possvel!

Fez uma pausa e acrescentou, num esgar de amarga ironia:

Certamente haver muitas mulheres como a condessa para ajud-lo!

Cada palavra dela feria fundo, mas Felicidade noprotestou. S conseguia chorar. 

Continuaram o percurso em silncio, at que a duquesa exclamou:

C estamos! E quanto antes sarmos de Portugal 

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e deixarmos para trs todas essas infelicidades, melhor.

Felicidade, de repente, percebeu que tinham ido mais longe, muito alm da casa em que estavam.

Tirou as mos do rosto e, para seu espanto, reconheceu a Estao Ferroviria de Lisboa.

Antes que pudesse fazer qualquer pergunta, a porta da carruagem foi aberta e a duquesa desceu.

Um homem que Felicidade nunca vira antes acompanhou-as at a plataforma.

L estava a criada de quarto da duquesa, Pedro e mais dois outros criados da villa, esperando diante do vago de um trem.

Era uma composio diferente, de poucos vages, como se fosse particular.

A duquesa agradeceu a Pedro e ao homem que as acompanhara at ali, a quem entregou uma quantia em dinheiro, que devia ser distribuda entre os empregados.

Ento a duquesa entrou no trem e Felicidade seguiu-a como um autmato.

Estava to perplexa que mal podia entender o que estava acontecendo.

Pensou, apenas, que a duquesa havia planejado tudo com antecedncia, e, como ela dissera h pouco, estavam indo embora de Portugal e ela nunca mais veria o marqus.

"Eu no posso ir... No devo ir... Preciso ficar aqui", pensou Felicidade, aflita.

Ento lembrou-se de que no tinha dinheiro, nem teria para onde ir s com a roupa do corpo.

Ficou parada no meio do vago, indecisa e desolada.

Sente-se! ordenou a duquesa.

Felicidade obedeceu, e o trem se ps em movimento.

Tudo foi providenciado conforme a senhora pediu, madame disse o camareiro do trem, em francs. Deseja uma taa de champanhe, e talvez algo para comer?

- Nada para comer, obrigada, Henri retrucou, mas uma taa de champanhe seria bem-vinda. Traga uma para mademoiselle tambm.

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Henri saiu do vago e poucos minutos depois um outro camareiro, de palet branco, trouxe o champanhe.;

Entregou uma taa a Felicidade. 

Ela aceitou, mas no tinha vontade de beber, s de entender o que estava acontecendo.

Em seguida ficaram a ss, e mal a duquesa tomara alguns goles, disse:

Imagino que esteja ansiosa para saber o que vai acontecer com voc, no ?

Estou assustada... com medo... confessou Felicidade.

Bem, acho que, uma vez que voc desempenhou seu papel exatamente como eu queria, eu lhe devo algo.

A senhora est sendo gentil, madame, mas... mas eu

o amo! 

A duquesa sorriu com desdm.;

Tal como eu amei o pai dele. E o que ganhei com isso?

Eu pensei que ele me amasse, s por mim... sem interesse...

Ento voc  to tola quanto eu era. Os homens so todos iguais, e para homens como o marqus o amor no conta, s importa o bero, a educao!

Os olhos de Felicidade inundaram-se de lgrimas.

A senhora quer dizer que ele s gostou de mim porque achou que eu fosse sua sobrinha e sua herdeira...? 

Certamente ele nem a teria notado se soubesse quem voc  de fato!

Felicidade fechou os olhos, sentindo que a duquesa desferira um golpe mortal.

Mas no fundo sabia que era uma verdade.;

Como poderia um homem do porte do marqus interessar-se por uma mulher como ela?

Uma vendedora, como aquelas que ficavam pelas ruas, correndo atrs dos turistas, insistindo para comprarem suas mercadorias.

A dor que sentia era to intensa que desejou morrer. Tal como a duquesa dissera ter morrido. E, no entanto, tornara-se uma duquesa... 

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Acho que  melhor contar-lhe o que planejei disse a duquesa, interrompendo seu devaneio. Sei que vai se surpreender, mas vou mand-la para a Inglaterra.

Para a Inglaterra?! Mas... mas eu nunca estive l!...

De certa forma sinto-me responsvel por voc, embora no haja razo para isso. E h a possibilidade, talvez remota, de o marqus querer transform-la em amante dele, 
como o pai fez comigo!

O corao de Felicidade quase parou.

Se ao menos pudesse v-lo de novo, se pudesse explicar a ele o que acontecera... Se ao menos ele ainda a amasse, nem que fosse um pouquinho...

S ento se deu conta do que a duquesa dissera, e ficou chocada.

Certamente jamais faria algo to condenvel e desprezvel como tornar-se amante de algum homem!

Mesmo amando o marqus de todo o corao!

Sua me ficaria horrorizada com uma coisa dessas, mas, acima de tudo, seria um pecado que a Virgem Maria condenaria.

A educao que tivera no convento e sua devoo a Deus faziam-na sentir que viver com um homem sem ser casada era degradar-se.

A senhora disse mesmo que ia me mandar para a Inglaterra, madame? perguntou Felicidade, numa voz que parecia vir de muito longe.

Disse. Para a Inglaterra! L  o nico lugar onde o marqus no ir procur-la, se  que ele vai se preocupar em procur-la.

Olhou de relance para Felicidade e notou sua aparncia pattica, com as lgrimas escorrendo pelas faces plidas, as mos cruzadas, num esforo para controlar-se.

Na Inglaterra, tenho certeza, encontrar algum trabalho prosseguiu a duquesa, e sem dvida haver quem compre suas costuras.

Mas... eu nunca estive na Inglaterra!

Ento ser uma nova experincia para voc! E estou

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sendo extremamente generosa. Vou lhe pagar a viagem e depositarei num banco de Londres quinhentas libras em seu nome.

Fez uma pausa, mas como Felicidade no disse nada, prosseguiu:

Com isso voc no passar necessidade enquanto estiver procurando trabalho ou algum para cuidar de voc.

Felicidade achou que realmente era muita generosidade, mas estava apavorada.

Em Portugal, ao menos, havia pessoas como a dona da hospedaria, que fora boazinha com ela.

Talvez pudesse ainda encontrar algum dos amigos de seu pai para ajud-la, embora j houvesse tentado antes, sem xito.

Mas, na Inglaterra!

Agora, como j est tudo resolvido disse a duquesa,  melhor irmos para a cama descansar. S chegaremos a Paris amanh no fim da tarde, por isso, trate de aproveitar 
esse luxo e conforto enquanto pode!

Dizendo isso, ergueu-se e, segurando-se no encosto do assento, acrescentou:

Pelo menos tenho a satisfao de saber que o marqus lvaro no vai dormir esta noite. Eu dei a ele bastante assunto com que se preocupar!

Depois saiu do vago e nem viu que Felicidade escondera o rosto nas mos novamente.

Chorava agora desesperadamente.

Tinha acordado de um belo sonho e sua felicidade se desfizera em mil pedaos.

Estava s e desamparada.

Perdera a coisa mais linda que j conhecera: o amor.

A agonia e o desespero pareciam dilacerar-lhe o peito.

Deslizou da cadeira onde estava e deixou-se cair de joelhos no cho.

Chorou e chorou at sentir-se exausta

Ento, de repente, houve uma exploso ensurdecedora, cujo impacto fez cessarem as suas lgrimas.

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Ficou paralisada, como se estivesse congelada.

Houve mais um estouro, e em seguida outro ainda.

Parecia que tudo estava desmoronando  sua volta.

O vago foi sacudido violentamente e virou.

Numa frao de segundo, Felicidade entendeu que acontecera um desastre com o trem, e ento algo pesado bateu em sua cabea e ela no viu mais nada...

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CAPTULO VII

Felicidade recobrou a conscincia, como se sasse lentamente de um longo e escuro tnel.

Estava deitada e pensou que devia estar morta.

Lembrou-se vagamente do rudo das sucessivas exploses, da pancada doda na cabea, e depois, a escurido total.

Por instantes ficou sem saber o que acontecera, ento lembrou que estava num trem, que a duquesa a estava levando para longe do marqus.

E todo o sofrimento e a agonia de perd-lo voltaram a seu corao, fazendo-a abrir os olhos.

Descobriu estar num quarto que jamais vira antes.

Era pequeno, simples e austero.

Olhava para as paredes brancas, sem quadros, quando algum ergueu-se de uma cadeira da janela e aproximou-se da cama onde ela estava.

Voc est acordada? perguntou, em portugus.

Onde estou? disse Felicidade com dificuldade.

Voc est bem, no se preocupe, est num hospital respondeu a voz.

Ento uma delicada mo soergueu sua cabea e encostara uma xcara nos lbios. Ela engoliu o lquido, e a voz tranquila disse:

Procure dormir. Voc est a salvo, aqui, e ir se sentir melhor quando acordar.

Por ser mais fcil obedecer do que pensar, Felicidade cerrou os olhos

Quando acordou de novo, era noite, e uma freira estava ajeitando sua cama.

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Voc quer alguma coisa? Est com sede? perguntou a irm.

Acho que estou...

Ela deu-lhe de beber, e Felicidade sentiu-se um pouco mais forte para perguntar:

Eu sofri um acidente de trem...? Estou ferida? A freira, que era idosa, sorriu para ela.

Teve muita sorte, minha filha. O bom Deus olhou por voc, e no est nem ferida.

Mas... minha cabea...

Voc sofreu uma concusso, mas sem consequncias graves. Logo vai ficar boa, s precisa descansar, agora.

Felicidade fechou os olhos, mas no adormeceu logo. Ficou rezando para agradecer  Virgem Maria e pedir que o marqus no a esquecesse.

S acordou na manh seguinte.

Estava recostada em travesseiros, banhada e com os cabelos escovados.

Pouco depois entrou o mdico.

Era um senhor de meia-idade, com um rosto simptico, e foi dizendo ao v-la:

Voc tem muita sorte, minha jovem!

Estou contente por no estar machucada... disse Felicidade.

Ou morta acrescentou ele.

Algum morreu no acidente?...

Notou que o mdico e a freira hesitavam em responder.

A irm Maria me disse que voc passou bem a noite e que tem sido uma boa paciente disse ele, esquivando-se da resposta. Volto amanh para examin-la.

Notou a expresso de desaponto da moa e acrescentou com voz suave:

Agradea a Deus por t-la protegido e seu rosto ter ficado intacto.

Mas, como Felicidade continuasse preocupada, acrescentou, tentando distra-la.

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Uma das freiras disse que quando voc estava dormindo parecia um anjo!

Abaixou a cortina para o quarto ficar na penumbra e retirou-se.

Felicidade tentou rezar, mas s conseguia pensar que estava sozinha e com medo.

Sem se dar conta, comeou a chamar pelo marqus, pedindo que a ajudasse.

"Voc me amou... sei que me amou um pouco, ao menos" disse baixinho, como se quisesse se convencer. "Agora preciso de voc para cuidar de mim, me ajudar, me dizer 
como fazer..."

Soluou um pouco antes de continuar:

"Eu no vou atrapalhar... No quero impor minha presena, mas... ningum mais pode entender como me sinto s e desamparada..."

De repente ocorreu-lhe que, se estava num hospital, num quarto particular, era preciso pagar.

Como dizer s freiras que no tinha dinheiro, se estava viajando num trem particular e usando roupas caras?

Precisava descobrir o que acontecera com a duquesa, arranjar um jeito de poder conversar com ela. Queria pedir para no ir para a Inglaterra.

No, no, talvez no devesse pedir nada, j que a duquesa fora to generosa, dera-lhe de comer e vestira-a ricamente.

Embora a tivesse feito enganar o marqus...

Ao pensar nele, os olhos encheram-se de lgrimas, mas, em vez de chorar, imaginou que estava nos braos dele e no tinha mais medo de nada.

"Eu amo voc... amo voc!" murmurou, e adormeceu.

Felicidade ainda no estava bem acordada, quando a porta se abriu e ela ouviu a irm Maria dizer em voz baixa

Ela est dormindo e no deve acord-la.

Claro que no respondeu uma voz de homem. Reconhecendo de quem era a voz, Felicidade abriu os

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olhos e deparou com o marqus olhando-a, tal como em seus sonhos.

Quase gritou de alegria.

Ele se aproximou da cama, enquanto ela lhe estendia os braos.

Voc est acordada! exclamou ele. Sente alguma dor?

Notou a preocupao dele e seu corao aqueceu-se.

Estou bem... estava sonhando... A irm Maria saiu e fechou a porta.

O marqus sentou-se ao lado da cama, como naquele dia, no iate.

No me deixaram v-la ontem, nem anteontem, mas eu insisti com o mdico, e ele permitiu que eu a visse hoje.

Voc esteve aqui todos os dias?

Assim que soube do acidente, pensei que ia enlouquecer! A nica informao que havia nos jornais era de que vrias pessoas haviam morrido e outras estavam gravemente 
feridas.

E a duquesa...?

O marqus hesitou, mas apertou de leve as mos dela, dizendo:

A duquesa morreu.

Que horrvel!

Voc s foi salva por um milagre!

Um milagre...?

Uma das poltronas caiu sobre voc, cobrindo-a. Demoraram para encontr-la, mas a poltrona a protegeu quando o teto afundou com o impacto, matando quase todos os 
passageiros.

E eu fui salva assim!

J agradeci a Deus mais de mil vezes, depois que cheguei aqui.

Voc veio saber de mim?


Vim para dizer que amo voc.

Ela ficou olhando-o, como se duvidasse de ter ouvido bem.

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Ento, seus olhos se iluminaram.

Voc disse que me ama?...

Voc sabe que a amo! Como ousou duvidar de meu amor e ir embora daquele modo cruel e impiedoso?

Eu nem sabia direito o que estava acontecendo... No tinha a menor ideia... No sabia que havia um trem  nossa espera para nos levar a Paris...

No precisamos falar sobre isso agora. S o que eu quero  lhe dizer que amo voc, e ter certeza de que me ama tambm.

Eu amo voc! E amo muito! Mas pensei que voc estivesse zangado comigo porque eu o enganei...

S uma coisa me importa neste momento...  voc estar viva! Quando pensei que tivesse morrido, senti que perdera o bem mais precioso para mim neste mundo!

No pode ser verdade... devo estar sonhando ainda! Os olhos dela encheram-se de lgrimas, e o marqus beijou-a na testa.

Voc est se emocionando demais disse ele.  melhor falarmos sobre isso quando voc estiver mais forte.

Ela o segurou, impedindo-o de afastar-se.

Fique comigo... por favor, fique comigo! Rezei tanto para que voc entendesse e soubesse como estou com medo!

No h de que ter medo, e trate de ficar boa logo, para podermos nos casar.

Ela o olhou nos olhos.

Casar?!

No era isso que estvamos planejando fazer quando voc fugiu?

Mas... mas a duquesa lhe disse quem sou eu... O marqus sorriu.

Para mim voc  tudo o que sempre sonhei e procurei!

Mas ela disse que voc nunca iria se casar comigo, como seu pai no se casou com ela!

No estou preocupado com meu pai, ou com o que a duquesa pensava. Voc  minha, e ns vamos nos casar assim que puder sair daqui e voltar para o palcio.

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- Nem posso acreditar!...

Agora as lgrimas rolavam por seu rosto.

Se voc chorar, meu amor, vo ficar bravos comigo e me mandar embora.

Ela riu entre as lgrimas.

O marqus pegou o leno do bolso e enxugou-lhe os olhos, depois beijou-lhe o rosto com ternura, e por fim beijou-lhe os lbios.

Felicidade sentiu-se no cu.

Fora arrebatada de um escuro mundo de sofrimento e medo para um reino cheio de luz e suavidade.

Sabia que era a luz do amor.

Eu amo voc! Amo-o tanto! murmurou ela. Mas... acho que no deve se casar comigo...

E por que no?

Porque voc pode se envergonhar de mim, e se me deixar, ento, vou querer morrer... como a duquesa.

No fale assim! Eu conheo essa histria, e acho que parece uma novela.

Ento, voc sabe?

Muito mais do que a duquesa contou naquela noite.

Ento conte-me, por favor...

Voc no sabe o que aconteceu?

Eu no sabia de nada... Fez uma pausa e desviou o olhar, sem jeito.  verdade que nos conhecemos no Grande Hotel, quando eu tentava vender meus trabalhos de agulha, 
que aprendi a fazer no convento onde fui educada...

Felicidade fez uma pequena pausa e prosseguiu:

Como ela disse, eu era uma vendedora...

E jamais voltar a ser.

O marqus inclinou-se e beijou-a na testa.

Parece to horrvel e humilhante... balbuciou Felicidade. Mas depois que minha me morreu, eu fiquei sen dinheiro e cheguei a pensar que ia morrer de fome...

Notei como voc estava magra quando a vi pela primeira vez, mas como poderia imaginar que era de passar fome, se

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voc foi apresentada como a sobrinha da duquesa, que  to rica?

A duquesa foi muito boa comigo... e quando ela me pediu para fingir ser sua sobrinha, eu no entendi por qu...

Ergueu o olhar splice para o marqus e prosseguiu:

Voc acredita em mim? Quando a duquesa disse quem eu era, naquela noite, foi que percebi tratar-se de uma vingana, entendi que ela queria ferir voc...

Claro que acredito em voc! Mas, meu amor, nunca mais minta para mim e nunca fuja de mim!

Eu juro que no. Voc quer mesmo casar-se comigo...?

Assim que voc sair daqui! Felicidade sorriu e disse:

Sabe que no tenho ideia de onde estou? Imagino que seja em Portugal, ainda, pois as freiras falam portugus.

Voc est no Convento do Sagrado Corao, no Porto. O hospital  dentro do convento.

Felicidade suspirou, satisfeita.

Que bom estar em meu pas? E agora que estou com voc, no precisarei mais ir para a Inglaterra...

Para a Inglaterra!

A duquesa ia me mandar para l, para que voc no me encontrasse, se quisesse me procurar...

Ele passou o brao pelos ombros dela.

Eu a teria encontrado nem que fosse no fim do mundo! Jamais perderei voc, meu amor, e juro que voc nunca me perder!

Ento, no conseguindo resistir mais, beijou-a, um beijo suave e terno.

Agora  melhor eu ir embora e deix-la descansar. Assim que estiver boa, eu a levarei para casa.

Casa...?!

, a nossa casa, meu amor. E beijou-a de novo.

Felicidade custou para dormir  noite, pois estava alvoroada. Mal podia acreditar que no estivesse sonhando, que ele

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ainda queria se casar depois do que a duquesa dissera, mesmo sem saber nada a seu respeito, a no ser que era uma vendedora portuguesa.

No podia haver homem mais maravilhoso do que aquele!

Ento, comeou a rezar com todo o fervor do corao, agradecendo  Virgem Maria, que a abenoara e provara que o amor  maior do que tudo o que existe de material.

Muito maior ainda que o orgulho.

Felicidade vestiu-se com as roupas que haviam trazido do trem acidentado.

Por sorte, sua bagagem no fora danificada.

Ainda nada sabia sobre o desastre, pois as freiras no falavam no assunto.

A irm Maria disse-lhe que o marqus queria contarlhe tudo pessoalmente.

Ele vai cuidar de voc, e eu vou rezar por vocs dois. Ajudou Felicidade a colocar o bonito vestido azul e, depois, o chapu enfeitado com fitas de veludo e flores.

Uma vez pronta, a irm deixou-a, e ela sentou-se para esperar.

Logo o marqus chegou, e, como estava sozinha no quarto, ele a abraou.

Voc est bem, meu amor? Ser que no vai ser muito esforo?

Eu s quero estar com voc...

Isso era o que ele queria ouvir, e seu olhar refletiu tamanha alegria.

Beijou-a prolongadamente.

Depois, quando ele ia se encaminhar para a porta, Felicidade disse:

Por favor... quero lhe pedir uma coisa. Ele parou e ficou  espera.

A duquesa disse-me que ia me dar algum dinheiro para a viagem, mas eu no tenho nada comigo... E eu gostaria de doar uma quantia ao convento, para agradecer...

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Sentia-se constrangida de ter que pedir a ele, mas no via outro jeito de mostrar sua gratido s freiras. O marqus sorriu.

J fiz isso e garanto-lhe que as freiras ficaram bem contentes.

Felicidade encostou o rosto no peito dele.

Eu devia ter imaginado que voc pensaria em tudo.

Eu penso em voc e agradeo por estar viva. Venha, meu amor, vamos para casa!

Viajaram de volta, num vago particular, engatado no trem expresso que fazia o percurso entre o Porto e Lisboa. O marqus, ento, contou tudo sobre o acidente.

A duquesa havia insistido que seu trem particular partisse logo depois de ter embarcado com Felicidade.

A linha, entretanto, no estava desimpedida, e a uns vinte quilmetros da cidade do Porto a pequena composio chocou-se com um trem de carga que vinha em sentido 
oposto.

Os maquinistas dos dois trens morreram na hora.

Quando o trem particular descarrilhou e virou, o teto afundou, matando a duquesa, Henri e um camareiro.

Quatro outros homens, inclusive o guarda do trem, tinham ficado gravemente feridos.

Enquanto Felicidade ouvia o relato do marqus, percebeu que fora salva por estar chorando.

Lembrou-se de que estava chorando to forte que tinha deslizado da poltrona para o cho, onde ficara encolhida.

A poltrona virara em cima dela, protegendo-a. A pancada deixara-a inconsciente, mas protegera-a dos vidros quebrados e das vigas pesadas do teto.

O marqus contou que se prontificara a pagar a hospitalizao dos feridos e tomara todas as providncias para que o corpo da duquesa fosse levado para a Frana. 

A cerimnia fnebre seria na capela do castelo do duque, no Loire.

L ela ser enterrada ao lado de todas as outras duquesas 

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de Monreuil disse o marqus, e acho que ficaria satisfeita de saber que  muito mais importante do que se tivesse se casado com meu pai.

Falava em tom leve, para evitar que Felicidade se impressionasse demais com o que acontecera.

Ela deve ter amado muito seu pai...

Tenho certeza que sim. Fez uma pausa e continuou: Quando voc foi embora, naquela noite, depois de a duquesa ter dito como planejara se vingar atravs de mim, confesso, 
no incio fiquei perplexo e achei difcil acreditar que aquilo fosse verdade.

Felicidade ergueu os olhos para ele.

Mas voc acreditou...?

Para me certificar, fui at a escrivaninha de meu pai, em que eu nunca mexera e que ficara trancada desde a morte dele. Abri as gavetas.

Felicidade ajeitou-se e apoiou a cabea no ombro do marqus.

Achei o dirio dele e fiquei sabendo que a duquesa teve um papel importante em sua vida, por cinco anos. Fez uma pausa, antes de dizer: Achei tambm recortes de 
jornais noticiando a morte dela.

Ento ela enganou mesmo todo mundo, deixando que pensassem que se matara!

Encontraram as roupas e as jias dela num rochedo  beira do abismo.

Seu pai sofreu com isso?

Acho que ficou com remorso e sentimento de culpa pelo resto da vida. Mas, por outro lado, foi bastante feliz com minha me. Como voc sabe, ela era inglesa e muito 
bonita. Amava muito meu pai.

Ficou calado por instantes, antes de acrescentar:

Quando me lembro de minha infncia, tenho sempre boas recordaes, de muito amor e alegria. E  o que quero para nossos filhos, meu amor

Felicidade enrubesceu e baixou o olhar.

O marqus contemplou-a com ternura, achando que no

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podia haver mulher mais bela e pura. Sabia que, por mais que a duquesa dissesse, a beleza de Felicidade e suas qualidades intrnsecas faziam-na um ser humano to 
nobre quanto ele. Quando chegaram ao palcio, o marqus insistiu para que Felicidade fosse direto para a cama.

Mas eu no quero ficar longe de voc... murmurou ela.

Seria anticonvencional voc ficar no palcio sozinha comigo, por isso minha av est aqui para ser sua acompanhante at nos casarmos. Mas espero que me permita ir 
v-la para dar-lhe boa noite.

Sua av! admirou-se Felicidade.

, ela  inglesa. Como no tem estado muito bem, fica sempre na villa  beira-mar.

Notou que Felicidade ficara nervosa e acrescentou:

Ela  muito boa, e tenho certeza de que a receber bem, como minha futura esposa.

Ela pode achar que eu no sirvo para voc...

Quando ela conhecer voc, tenho certeza de que achar que eu  que no a mereo.

Felicidade riu, e ele disse:

Venha, vou apresent-las, depois quero que v se deitar. Tal como o marqus dissera, a duquesa era bem idosa,

mas tinha ainda traos da antiga beleza da juventude. Tinha uma presena imponente que revelava sua nobreza. Os olhos eram bondosos, e tambm o sorriso com que recebeu 
a reverncia de Felicidade.

Meu neto disse que vocs vo se casar disse ela em ingls, e estou muito contente por ele ter afinal escolhido uma esposa.

S espero poder faz-lo feliz respondeu em ingls, automaticamente.

A duquesa admirou-se.

Ah, voc fala ingls muito bem!

Obrigada, mas nunca estive na Inglaterra.

Ento, sem dvida, meu neto precisa lev-la para passar 

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algum tempo com os parentes ingleses, que gostam muito dele!

O marqus no permitiu que ficassem conversando muito tempo e logo conduziu Felicidade aos aposentos que ela ocuparia, no outro andar, deixando-a aos cuidados de 
Ana, governanta no palcio h muitos anos.

Com a ajuda de uma criada de quarto que lhe fora destinada, Felicidade despiu-se.

Depois deitou-se na cama do quarto mais maravilhoso que j vira.

A janela dava para os campos, e o aposento, ricamente mobiliado, tinha sido ocupado por todas as castels do palcio.

A cama tinha um dossel com cupidos dourados segurando as cortinas de veludo azul-claro.

Parecia-lhe um sonho saber que dormiria naquele lugar, quando h to pouco tempo estava naquele srdido sto da hospedaria.

Estar viva e ser amada pelo marqus era bom demais para ser verdade.

Mais tarde levaram-lhe um delicioso jantar numa bandeja, e pouco depois o marqus foi lhe dar boa noite.

Como ele estava decidido a respeitar as convenes, Felicidade fez com que deixasse a porta aberta.

Ele entrou e parou ao lado da cama.

Est bem instalada, meu amor?

Os olhos dela brilhavam quando estendeu os braos para o marqus.

Eu mal acredito que no estou sonhando... Tudo  to perfeito! Quero tocar em voc para ver se  real mesmo.

O marqus riu e sentou-se na beirada da cama.

Depois que nos casarmos, amanh, eu provarei que sou real!

Amanh?

No posso esperar mais, e minha av quer voltar para a vila. Este local onde est o palcio  muito alto, e ela tem nedo que isso afete sua asma.

E vai ser possvel nos casarmos amanh...?

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Claro. Voc se tornar minha esposa, e depois no haver mais lgrimas nem temores. Sei que seremos muito, muito felizes.

Falava olhando-a nos olhos, e Felicidade viu dentro dos dele um brilho diferente, que lhe despertou uma sensao desconhecida. Algo a impelia para ele.

Queria que a beijasse prolongadamente, mas percebeu que ele estava se esforando para controlar-se.

Aps instantes, o marqus disse:

S falta uma coisa, meu amor.

Qual?

Voc percebeu que eu ainda no sei seu sobrenome? Felicidade no pde deixar de rir.

Contando, ningum acreditaria!

Eu preciso saber seu nome todo para a certido de casamento e para constar na rvore genealgica da famlia.

Ela demorou um pouco para responder.

Quando eu disser, acho que voc vai ficar chocado... e sua av tambm, tenho certeza...

Chocado?! Ns nos amamos, Felicidade, e nada nem ningum atrapalhar nosso amor.

Mame dizia que eu no devia mencionar meu sobrenome... porque ele havia causado um grande escndalo.

O marqus no disse nada, apenas segurou a mo de Felicidade entre as suas.

Meu av comeou ela, em voz baixa viveu perto de Stratford-upon-Avon.

A cidade de Shakespeare?

. H dezenove anos, em 1871, um grupo de poetas e escritores foi escolhido para visitar a cidade, durante as comemoraes de aniversrio de Shakespeare...

Essa comemorao  tradicional. Mas continue, meu amor.

Meu pai ficou muito orgulhoso de ser um dos poetas escolhidos para representar Portugal. Quando chegou  Inglaterra, o grupo foi acomodado em vrias casas das vizinhanas.

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Felicidade fez uma pausa, antes de prosseguir.

Meu pai e mais outros trs portugueses ficaram hospedados com o conde de Stratford.

O marqus ergueu as sobrancelhas e perguntou:

Est querendo me dizer que seu av era o conde de Stratford?

Exatamente. Mas eu ainda no terminei a histria.

E continuou, em voz baixa, sem olhar para o marqus.

Minha me estava noiva do filho mais velho do duque de Ilminster, e iam se casar dentro de uma semana...

O marqus adivinhou o que acontecera, mas no quis interromper Felicidade.

... Mas assim que viu meu pai, sentiu que ele era o homem de seus sonhos.

E eles se apaixonaram.

Ficaram perdidamente apaixonados, e, sentindo que no poderiam viver separados, eles fugiram...

Ergueu os olhos para o marqus, buscando compreenso. Ele sorria, e aproximando os lbios dos dela, disse:

Foram muito sensatos, meu amor. Eu tambm pediria para voc fugir comigo se houvesse outro homem em sua vida!

Ento voc compreende...?

Claro que sim. E eu j lhe mostrei que o amor  mais importante do que tudo.

Voc  to maravilhoso!

Ento o marqus a beijou intensa e prolongadamente, como ela queria. Quando j estavam ambos ofegantes, ele disse:

Minha adorada, por que, ento, voc  to pobre? No poderia ter ido para a Inglaterra? No acredito que seus parentes no a tivessem recebido!

Eu sugeri isso a minha me, certa vez, depois que meu pai morreu... mas ela disse que seu pai jamais a perdoaria por ter causado um escndalo.

Felicidade baixou a voz.

A rainha mandara um representante ao casamento dela, 

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os presentes todos j haviam chegado e havia dois membros mais jovens da famlia real entre as damas de honra da noiva. O marqus riu, achando graa.

Estou vendo, meu amor, que sua me zombou de todas as convenes do protocolo britnico, e admiro a coragem dela!

Gostaria que minha me pudesse ouvir isso!

Tenho certeza de que ela pode.

Os olhos de Felicidade brilhavam, cheios de amor e gratido pela compreenso dele.

Mas o marqus estava sendo sincero. Achava que o amor estava acima de tudo.

Sabia tambm que, agora, com a ajuda de sua av, os parentes de Felicidade, da famlia Stratford, sem dvida a receberiam.

E Felicidade ocuparia seu lugar tradicional na corte do rei Carlos.

Minha me recebia uma pequena renda da av dela, com o que nos sustentamos enquanto ela era viva. Suspirou fundo. Mas quando ela morreu, isso tambm acabou...

O marqus inclinou-se para beij-la, dizendo:

Agora voc s tem de pensar que me ama e que amanh nos casaremos. Isto  uma ordem.

Beijou-a.

Vamos comear uma vida nova, juntos, e vamos ser to felizes em nosso palcio encantado que nosso amor ajudar outras pessoas a serem felizes como ns.

Isso  o que mais quero. Prometa que no vai desaparecer com a noite e me deixar sozinha...

Prometo que estarei aqui pela manh o marqus sorriu, e ento estaremos juntos dia e noite!

Beijou-a com ternura, depois ergueu-se e beijou as mos dela.

- Boa noite, minha linda noiva e que Deus a abenoe. Felicidade deu um sorriso tmido. Ento, depois que ele se retirou, ela uniu as mos e fechou 

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os olhos.

Obrigada, meu Deus, obrigada! Depois rezou:

Por favor, Santa Maria, Me de Deus, d-nos filhos bons e belos, delicados e meigos como ele, para que as pessoas que nos contemplem se inspirem em ns.

Felicidade casou-se na tarde do dia seguinte.

A pequena capela ficava na ala leste do palcio.

As nicas pessoas presentes foram a duquesa, av do marqus, e o secretrio dele.

Dois coroinhas ajudavam o idoso capelo.

O cheiro de incenso e lrios espalhava-se no ar.

Felicidade usava o mesmo vestido branco que usara na primeira noite em que fora ao palcio.

Cobria-lhe a cabea, mas no o rosto, um vu de renda que pertencia  famlia h muitos anos.

O buqu era de flores de laranjeira naturais, colhidas pelo jardineiro.

Quando entrou na capela, o marqus estava  sua espera, e ficou extasiado ao v-la. Amava-a como nunca amara ningum, de corpo e alma.

Ao terminar a cerimnia, Felicidade e o marqus sentiram que a capela parecia estar iluminada com a bno de Deus.

Foram para o jardim, onde o sol brilhava sobre as fontes e flores. Felicidade entendeu que o amor deles transformara o palcio num paraso.

Depois do almoo, a av do marqus partiu numa carruagem para sua villa  beira-mar.

A ss, no terrao onde haviam conversado na primeira noite, o marqus e Felicidade contemplavam a paisagem vista do alto do palcio.

Ao longe, Lisboa misturava-se na nvoa.

Mesmo que ns morssemos l embaixo, num bairro pobre, eu cuidaria de voc e o amaria tanto quanto o amo...

O marqus ficou comovido com o que ela disse e

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abraou-a.

Eu sei, minha adorada, mas gosto de ouvi-la dizer isso. Nosso amor  maior do que a pobreza, maior do que as privaes e do que qualquer outra coisa no mundo!

Beijou-lhe de leve os cabelos e acrescentou:

O que estamos esperando, minha esposa adorada? Eu quero lhe ensinar tudo sobre o amor. H muito o que aprender...

Felicidade respirou fundo.

Como voc disse, meu adorado marido, o que estamos esperando?

O marqus riu.

De mos dadas com Felicidade, ele a conduziu pelo salo, e depois subiram a escada.

No quarto, o sol entrava pelas janelas, dourando tudo, e Felicidade sentiu aquela luz clida invadir seu corpo. Quando o marqus a beijou apaixonadamente, ela j 
no sabia se era a luz do sol que dourava tudo, ou se era o que sentia que lhe aquecia o corao e a alma.

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QUEM  BARBARA CARTLAND?

As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos 
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri 
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso 
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara 
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por 
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
